Quem eram os Inconfidentes mineiros e quais ideias defendiam?
Nome dos principais inconfidentes com respectivas profissões e participações.
Os participantes da conspiração mineira
Os inconfidentes foram pessoas envolvidas nas conversas e nos planos de ruptura com o domínio português em Minas Gerais, sobretudo entre 1788 e 1789. Parte delas ocupava cargos na administração ou possuía propriedades. Os participantes discutiram a criação de um governo próprio, mas a repressão impediu que o levante planejado chegasse a ocorrer.
O grupo reunia pessoas com posições sociais e compromissos diferentes. Alguns estavam endividados com a Fazenda Real; outros criticavam as restrições impostas pela metrópole. Para conhecer suas ideias, os historiadores examinam depoimentos e documentos apreendidos, distinguindo as propostas discutidas da participação atribuída a cada acusado.
Os conflitos com o governo português
A Coroa cobrava o quinto, tributo correspondente a 20% do ouro extraído, e exigia que Minas atingisse uma arrecadação anual fixada em cem arrobas. Com a redução das receitas, as autoridades ameaçavam executar a derrama, cobrança destinada a completar os valores exigidos e recuperar atrasados.
Os conspiradores contavam com a insatisfação provocada por essa cobrança para mobilizar moradores contra o governo. Alguns deles também enfrentavam dívidas relacionadas a contratos de arrecadação de impostos. A ruptura podia atender, ao mesmo tempo, a expectativas de autonomia e à defesa de patrimônios particulares.
Os envolvidos discutiam a capacidade da capitania de sustentar um governo independente. Além da mineração, Minas possuía produção agrícola e comércio. Eles criticavam a transferência de recursos para Portugal e as limitações impostas a atividades que desejavam desenvolver na região.
Tiradentes e a divulgação da revolta
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, era alferes da tropa de Minas. Também exerceu atividades de tratamento dentário, das quais veio seu apelido. Suas viagens entre a capitania e o Rio de Janeiro permitiam conversar com pessoas e conhecer as rotas que ligavam a região mineradora ao litoral.
Tiradentes divulgava propostas de separação e tentava obter adesões. Nas conversas atribuídas a ele, afirmava que os moradores poderiam governar a terra onde viviam. O exemplo dos antigos colonos britânicos da América do Norte, que haviam conquistado a independência, oferecia uma referência para esse projeto.
No Rio de Janeiro, encontrou José Álvares Maciel, com quem discutiu a política econômica portuguesa. Sua atuação como propagandista o expôs a interlocutores que depois prestaram informações às autoridades. Os juízes utilizaram essas falas na acusação contra o alferes.
Os magistrados e poetas
Tomás Antônio Gonzaga formou-se em Direito em Coimbra e exerceu o cargo de ouvidor em Vila Rica. Autor de Marília de Dirceu, também escreveu as Cartas Chilenas, sátira aos abusos do governador Luís da Cunha Meneses. Nesses versos, criticava condutas de uma autoridade colonial, recorrendo a personagens e lugares fictícios.
Gonzaga foi acusado de integrar a conspiração e condenado ao degredo em Moçambique. Durante os interrogatórios, negou seu envolvimento. Sua formação jurídica e suas relações com outros acusados fizeram dele um nome associado à organização política do futuro governo, embora os pesquisadores discutam o alcance de sua participação.
Cláudio Manuel da Costa era advogado e proprietário ligado à mineração, além de poeta. Também estudou em Coimbra e exerceu funções públicas em Vila Rica. Sua casa e suas relações pessoais integravam o ambiente de convivência dos envolvidos. Morreu preso em julho de 1789, antes do julgamento final; as autoridades registraram sua morte como suicídio.
Inácio José de Alvarenga Peixoto havia exercido a magistratura e possuía negócios rurais e mineradores na comarca do Rio das Mortes. Participou das articulações e enfrentava dívidas. Sua posição ligava as propostas de mudança política aos interesses de proprietários que desejavam conduzir os negócios da capitania com maior autonomia.
Militares e religiosos nas articulações
Francisco de Paula Freire de Andrade era tenente-coronel e comandante da tropa paga de Minas. Os conspiradores procuravam contar com sua adesão para obter apoio militar. Suas conversas com Tiradentes e Maciel aparecem na documentação da devassa.
José Álvares Maciel tinha formação em Filosofia Natural pela Universidade de Coimbra e havia viajado pela Inglaterra. Os relatos associam sua atuação às discussões sobre a capacidade produtiva de Minas e à organização do projeto de ruptura. A formação científica de Maciel o aproximava dos debates sobre mineração e manufaturas.
Entre os religiosos envolvidos estavam o cônego Luís Vieira da Silva e o padre Carlos Correia de Toledo e Melo. Vieira possuía uma biblioteca examinada durante a investigação. Toledo participava das articulações na região de São José del-Rei. Os clérigos tinham contatos locais que podiam ser utilizados para transmitir informações e obter apoio.
Hipólita Jacinta e a circulação de informações
Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, proprietária rural casada com Francisco Antônio de Oliveira Lopes, manteve contatos com pessoas envolvidas na conjuração. Sua correspondência registra a transmissão de notícias sobre a repressão e iniciativas para alertar os aliados. Os pesquisadores examinam essas cartas para estudar a participação feminina nas redes do movimento.
As ideias de liberdade e governo próprio
Os participantes conheciam críticas ilustradas ao governo e ao domínio colonial. Alguns tiveram acesso a textos do abade Raynal e a documentos sobre a independência norte-americana. Eles selecionavam argumentos dessas leituras para discutir os problemas de Minas, conforme seus interesses e experiências.
A república aparecia entre as formas de governo propostas. Os depoimentos registram conversas sobre a substituição das autoridades portuguesas e a criação de instituições próprias. Os conspiradores ainda precisavam definir acordos e reunir forças para executar os planos.
Entre as propostas atribuídas às reuniões estavam estas:
• Organizar um governo independente, com instituições republicanas.
• Escolher São João del-Rei como capital do novo governo.
• Criar uma universidade em Vila Rica para ampliar a formação dos moradores.
• Estimular manufaturas e aproveitar depósitos de minério de ferro.
• Rever restrições e cobranças vinculadas à administração colonial.
Os historiadores discutem o alcance territorial pretendido pelos envolvidos. Minas ocupava o centro das articulações, e havia expectativas de apoio em outras capitanias. Os documentos deixam dúvidas sobre a extensão que o novo governo alcançaria caso a revolta tivesse ocorrido.
A escravidão e os limites da liberdade defendida
Vários envolvidos eram proprietários de pessoas escravizadas e obtinham rendimentos de seu trabalho. Ao defender liberdade diante de Portugal, podiam preservar as relações de domínio existentes dentro da sociedade mineira. Os participantes divergiam sobre a libertação dos cativos e sobre quem seria beneficiado pelas mudanças.
Depoimentos e estudos históricos atribuem a Alvarenga Peixoto e a Carlos Correia de Toledo propostas de emancipação. Outros registros indicam discussões sobre libertar pessoas escravizadas nascidas na América. Essas propostas não constituíram um compromisso comum de abolição geral.
Os conspiradores esperavam utilizar a insatisfação dos moradores para o levante, enquanto as articulações permaneciam concentradas em círculos de pessoas com cargos ou recursos. Os planos registrados oferecem poucas definições sobre a participação política que seria concedida à população pobre. O governo projetado ainda dependia de decisões que o grupo não chegou a executar.
A repressão e a leitura dos depoimentos
Joaquim Silvério dos Reis, que mantinha contatos com os envolvidos e devia à Fazenda Real, denunciou a conspiração ao governo. As autoridades realizaram prisões e abriram a devassa, investigação judicial destinada a apurar o crime. O governador visconde de Barbacena suspendeu a derrama, que os conspiradores esperavam utilizar como ocasião para iniciar a revolta.
Nos interrogatórios, os acusados procuravam evitar punições. Alguns negavam conhecimento dos planos ou atribuíam a iniciativa a outras pessoas. Os historiadores precisam comparar essas declarações, pois os depoentes falavam sob a ameaça de condenação e respondiam a perguntas formuladas pelos representantes da Coroa.
Vários réus receberam condenações à morte, depois substituídas por degredo. Tiradentes foi o único executado, em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro. Outros envolvidos seguiram para destinos africanos, onde tiveram trajetórias distintas.
No século XIX, republicanos recuperaram a memória da conspiração e de Tiradentes para defender suas próprias ideias. A imagem pública do alferes ganhou destaque em comemorações e obras de arte. Essa memória posterior costuma reunir os envolvidos sob um ideal comum, enquanto os documentos do processo registram divergências e diferentes graus de compromisso.
Você Sabia?
• Um dos livros associados às leituras dos conspiradores era o Recueil des loix constitutives des colonies angloises, coletânea em francês de documentos constitucionais das antigas colônias britânicas. Os leitores podiam conhecer modelos norte-americanos por meio de traduções que circulavam na Europa.
• A palavra “inconfidência” expressava, na linguagem das autoridades, uma quebra de fidelidade à Coroa. Ao empregar “Conjuração Mineira”, historiadores destacam a articulação conspiratória dos envolvidos, em vez de adotar apenas a designação de seu crime segundo o governo português.
_______________________________
Pergunta respondida por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela USP)
Atualizado em 09/10/2026
Bibliografia indicada sobre o tema:
RODRIGUES, André Figueiredo. A Fortuna dos Inconfidentes. Rio de Janeiro: Globo, 2002.
Veja também
- História do BRASIL COLONIAL
- Principais Ciclos Econômicos do Brasil Colônia
- Conjuração Mineira: o que foi, objetivos, causas e consequências
- Revoltas Emancipacionistas no Brasil: exemplos, causas e contexto histórico
- Impostos sobre o ouro no Brasil Colonial: quais eram e reações
- Extração do ouro no Brasil Colonial: contexto histórico e técnicas