Quais foram as Causas da Crise da Ditadura Militar no Brasil?

A crise da Ditadura Militar no Brasil foi marcada por recessão econômica, hiperinflação, endividamento externo, desgaste político devido à repressão e censura, além do crescimento da oposição civil.

 

O desgaste do regime militar

A ditadura militar brasileira, instalada após o golpe de 1964, enfrentou uma crise prolongada que se agravou entre o final da década de 1970 e os primeiros anos da década seguinte. Os governantes perderam apoio quando a economia entrou em recessão e os trabalhadores ampliaram suas mobilizações. Ao mesmo tempo, os opositores denunciaram a repressão e conquistaram mais espaço nas eleições permitidas pelo regime.

Os militares também divergiam sobre a condução da abertura política. Enquanto os presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo defendiam uma transição sob seu comando, integrantes da chamada linha-dura resistiam à redução dos poderes repressivos. Para explicar o encerramento dos governos militares em 1985, é preciso acompanhar essas disputas e as pressões que a sociedade exerceu sobre os responsáveis pela ditadura.



Os limites do crescimento econômico

Durante o chamado milagre econômico, entre 1968 e 1973, o governo associou sua autoridade ao crescimento da produção e às grandes obras. A propaganda oficial apresentava os investimentos como prova da capacidade dos militares de administrar o país. Trabalhadores, porém, enfrentavam restrições à organização sindical e uma política de contenção dos salários, enquanto os grupos de maior renda concentravam parte dos ganhos.

O primeiro choque do petróleo, em 1973, encareceu as importações de combustível. Como o Brasil dependia do petróleo comprado no exterior, o governo precisava gastar mais dólares para manter a atividade econômica. Geisel respondeu com o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento, que ampliou investimentos industriais e energéticos, financiados em parte por empréstimos externos.

O país continuou crescendo durante vários anos após esse choque, mas os governantes acumularam compromissos com credores estrangeiros. Ao sustentar investimentos com recursos tomados no exterior, ficaram mais expostos a mudanças nos juros internacionais e à disposição dos bancos de conceder novos empréstimos.



Endividamento, inflação e recessão

Em 1979, um segundo choque do petróleo aumentou os custos de importação. As autoridades dos Estados Unidos também elevaram os juros para combater a inflação em seu país. Os devedores brasileiros passaram a pagar mais pelos empréstimos contratados a taxas variáveis, enquanto o governo precisava obter dólares para cumprir os compromissos externos.

Após a crise internacional da dívida, em 1982, os bancos restringiram o crédito aos países latino-americanos. O governo Figueiredo negociou com o Fundo Monetário Internacional e adotou medidas de ajuste. Ao limitar gastos e encarecer o crédito, as autoridades agravaram as dificuldades de empresas e famílias que já enfrentavam a recessão.

Os trabalhadores sofreram com o desemprego e com a inflação, que corroía os salários entre um reajuste e outro. Nas cidades, famílias precisavam reorganizar o orçamento para comprar alimentos e pagar transporte. A insatisfação econômica alcançou também comerciantes e industriais, que perderam vendas ou encontraram dificuldades para financiar suas atividades.

Os governantes passaram a enfrentar críticas justamente no campo que haviam usado para justificar sua permanência no poder. A população comparava a promessa de prosperidade com o custo de vida e com a falta de trabalho, enquanto as autoridades continuavam restringindo a participação dos cidadãos nas decisões nacionais.



As denúncias de tortura e a perda de legitimidade

Familiares de presos e advogados denunciaram torturas e desaparecimentos políticos, enfrentando a censura e o risco de perseguição. Dirigentes da Ordem dos Advogados do Brasil e da Associação Brasileira de Imprensa cobraram o respeito aos direitos individuais. Bispos e padres ligados à defesa dos direitos humanos acolheram vítimas e contestaram as versões oficiais sobre mortes sob custódia.

Em outubro de 1975, agentes do DOI-CODI de São Paulo torturaram e mataram o jornalista Vladimir Herzog. Os responsáveis divulgaram uma versão de suicídio, rejeitada por seus familiares e por integrantes da oposição. O ato ecumênico realizado na Catedral da Sé reuniu manifestantes e abriu um espaço público de protesto contra a violência estatal.

A morte do operário Manoel Fiel Filho no mesmo órgão repressivo, em janeiro de 1976, agravou a pressão sobre o governo. Geisel afastou o comandante do II Exército. Os opositores passaram a exigir explicações sobre crimes que as autoridades tentavam encobrir, e o presidente enfrentou comandantes que mantinham práticas repressivas durante a distensão anunciada por seu governo.



A reorganização dos movimentos sociais

A partir de 1978, os metalúrgicos do ABC paulista organizaram greves por reajustes salariais e liberdade de atuação sindical. Nas fábricas da região, operários interromperam o trabalho e participaram de assembleias que reuniam grandes contingentes. Luiz Inácio Lula da Silva, dirigente sindical em São Bernardo do Campo, ganhou projeção nessas mobilizações.

O governo respondeu com intervenções nos sindicatos e prisões de lideranças, incluindo Lula em 1980. Os trabalhadores mantiveram sua organização e receberam apoio de comunidades católicas. Ao enfrentar decisões do governo sobre salários e sindicatos, os grevistas questionaram a autoridade dos militares sobre a vida dos trabalhadores.

Estudantes retomaram manifestações, enquanto associações de moradores reivindicavam serviços públicos nos bairros. A campanha pela anistia reuniu familiares de perseguidos políticos e entidades civis. Com a lei aprovada em 1979, exilados puderam retornar ao Brasil e participar da reorganização partidária, embora o governo tivesse concedido uma anistia com restrições.



As derrotas eleitorais e as mudanças nas regras

Nas eleições de 1974, o Movimento Democrático Brasileiro, partido de oposição autorizado, ampliou sua presença no Congresso e conquistou a maioria das vagas do Senado que estavam em disputa. Eleitores usaram uma oportunidade limitada de participação para manifestar insatisfação com o governo. A Arena, partido governista, manteve posições no Legislativo, mas seus dirigentes tiveram de enfrentar uma oposição com maior apoio nas urnas.

Os governantes reagiram alterando as regras. A Lei Falcão restringiu a propaganda eleitoral no rádio e na televisão em 1976. No ano seguinte, Geisel fechou temporariamente o Congresso e impôs o Pacote de Abril, que incluiu a escolha indireta de parte dos senadores. Com essas medidas, o governo preservou vantagens parlamentares, ao custo de expor sua disposição de limitar a competição eleitoral.

Em 1982, os brasileiros voltaram a eleger os governadores pelo voto direto. A oposição venceu em estados como São Paulo e Minas Gerais, assumindo governos com recursos e capacidade de articulação política. Os militares continuavam na Presidência, mas os opositores passaram a governar parcelas expressivas da população.



As divergências entre os militares

Geisel iniciou a distensão em 1974 para conduzir mudanças sob o controle da Presidência. Oficiais da linha-dura temiam perder influência e resistiam à redução dos poderes de exceção. O presidente enfrentou essa resistência ao afastar o ministro do Exército, Sylvio Frota, em 1977, durante as disputas pela sucessão presidencial.

O governo revogou o Ato Institucional nº 5, com efeitos a partir de janeiro de 1979, e Figueiredo assumiu a Presidência com o compromisso de continuar a abertura. Os militares conservaram órgãos de repressão e recursos para intervir na política. Os opositores pressionavam por eleições livres, enquanto oficiais contrários à abertura tentavam impedir novas concessões.



O atentado do Riocentro

Em 30 de abril de 1981, militares ligados à repressão participaram de uma operação para lançar bombas durante um espetáculo em comemoração ao Dia do Trabalhador, no Riocentro, no Rio de Janeiro. Os envolvidos pretendiam atribuir os ataques à esquerda e criar um ambiente favorável ao recrudescimento da repressão. Uma bomba explodiu dentro do automóvel de dois militares, matando um deles e ferindo o outro.

As tentativas de encobrir a responsabilidade dos agentes comprometeram a credibilidade do governo Figueiredo. Os opositores questionaram a investigação militar e denunciaram a atuação de grupos que sabotavam a abertura. O presidente precisava enfrentar a resistência desses grupos dentro das Forças Armadas, além de responder às cobranças da sociedade por esclarecimentos.



O afastamento de aliados e as pressões externas

Parte dos empresários que havia apoiado os militares passou a criticar a condução da economia. Alguns contestavam a expansão das empresas estatais; outros cobravam respostas à recessão. Dirigentes empresariais aproximaram-se das discussões sobre a sucessão civil, tentando preservar seus interesses na transição. Os governantes perderam a coesão entre aliados que antes respaldavam suas decisões.

No exterior, o presidente norte-americano Jimmy Carter deu maior espaço aos direitos humanos em sua política diplomática a partir de 1977. O governo brasileiro reagiu às críticas e encerrou o acordo militar com os Estados Unidos firmado em 1952. Os opositores encontraram mais oportunidades para divulgar denúncias fora do país, embora a mudança política dependesse das disputas travadas no Brasil.



Diretas Já e a crise da sucessão presidencial

Entre 1983 e 1984, os organizadores da campanha Diretas Já reuniram multidões para reivindicar a eleição do presidente pelo voto popular. Lideranças partidárias e organizações sindicais participaram dos comícios. Os manifestantes exigiam decidir quem governaria o país, questionando a permanência de uma escolha presidencial restrita ao Colégio Eleitoral.

A Câmara dos Deputados rejeitou a emenda Dante de Oliveira em abril de 1984 porque seus defensores não alcançaram o número de votos exigido para alterar a Constituição. Após essa derrota, dirigentes da oposição negociaram com dissidentes do Partido Democrático Social, sucessor da Arena. Os dissidentes romperam com a candidatura governista de Paulo Maluf e participaram da aliança que apoiou Tancredo Neves.

Tancredo venceu a eleição indireta em janeiro de 1985, mas adoeceu antes da posse. Seu vice, José Sarney, assumiu a Presidência em março e permaneceu no cargo após a morte do presidente eleito. Com a posse civil, os militares encerraram sua sequência de governos; os brasileiros ainda conquistariam uma nova Constituição em 1988 e a eleição presidencial direta no ano seguinte.



Você Sabia?

• Therezinha Zerbini, uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia, era casada com o general Euryales Zerbini, cassado após o golpe. A campanha contou com mulheres cujas famílias haviam sofrido perseguição, inclusive dentro do próprio meio militar.

• José Sarney havia presidido o PDS antes de romper com o partido durante a sucessão de Figueiredo. Para integrar a chapa de Tancredo, filiou-se ao PMDB, reunindo em sua trajetória a liderança do partido governista e a participação na aliança que encerrou os governos militares.

 

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).

Atualizado em 09/10/2026

 

Bibliografia indicada sobre o tema:

 

VICENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História do Brasil. São Paulo, Scipione, 1998.

 

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.

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