Movimentos de oposição à Ditadura Militar no Brasil

A luta armada, os movimentos sindicais e estudantis e as ligas camponesas foram os principais movimentos contrários ao regime militar.

 

O que foram estes movimentos?


Durante a Ditadura Militar no Brasil (1964-1985), diferentes grupos políticos e setores da sociedade fizeram oposição ao regime. Essa resistência não foi homogênea. Parte dos opositores defendia a restauração das liberdades democráticas e atuava por meio de manifestações, organizações civis, movimentos estudantis, sindicatos, atividades culturais e denúncias contra a repressão. Outros grupos aderiram à luta armada e defendiam uma revolução socialista, inspirada em diferentes correntes do marxismo.

É importante distinguir esses projetos. A oposição ao regime militar não significava necessariamente compromisso com a democracia liberal. Algumas organizações revolucionárias pretendiam substituir a ditadura por uma ordem política socialista, enquanto outros movimentos concentravam sua atuação na defesa das eleições, das liberdades políticas, dos direitos humanos e do fim da repressão.


Os principais movimentos de oposição ao regime militar no Brasil:



1. Os movimentos de luta armada


Os grupos que aderiram à luta armada eram formados principalmente por militantes da esquerda revolucionária. Muitos surgiram de dissidências do Partido Comunista Brasileiro (PCB), de organizações marxistas e do movimento estudantil. Embora compartilhassem o objetivo de derrubar o regime militar, apresentavam diferenças ideológicas e estratégicas. Alguns receberam forte influência da Revolução Cubana de 1959, enquanto outros se aproximavam de concepções marxistas-leninistas ou de outras correntes revolucionárias.

Essas organizações realizaram ações clandestinas e armadas, como assaltos a bancos, ataques contra instalações militares e policiais, atentados e sequestros de diplomatas. Os assaltos eram chamados pelos próprios militantes de "expropriações" e tinham, entre suas finalidades, financiar as organizações. Os sequestros de representantes estrangeiros foram utilizados principalmente para exigir a libertação de presos políticos e divulgar denúncias contra o regime brasileiro.

A atuação da guerrilha urbana tornou-se mais intensa entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970, justamente no período de maior endurecimento da repressão política. Os órgãos de segurança e informação do Estado realizaram operações destinadas a desarticular essas organizações. Muitos militantes foram presos, mortos ou desapareceram após serem capturados. A repressão incluiu práticas ilegais realizadas por agentes estatais, como torturas, execuções e desaparecimentos forçados.

No início da década de 1970, a maior parte das organizações de guerrilha urbana havia sido desarticulada. A luta armada também encontrou dificuldades para conquistar apoio amplo da população. No campo, a experiência mais significativa foi a Guerrilha do Araguaia, organizada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), combatida pelas Forças Armadas principalmente entre 1972 e 1974.


Principais grupos de luta armada no Brasil


- ALN (Ação Libertadora Nacional): organização criada em 1967 a partir de uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro e liderada por Carlos Marighella. Defendia a luta armada como caminho para derrubar o regime militar e promover uma revolução socialista. Realizou ações de guerrilha urbana, assaltos a bancos e participou de sequestros de diplomatas.

- MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro): organização socialista surgida a partir de uma dissidência comunista formada principalmente por estudantes e intelectuais. Defendia a derrubada da ditadura e uma transformação revolucionária da sociedade brasileira. Em 1969, seus integrantes participaram, juntamente com militantes da ALN, do sequestro do embaixador dos Estados Unidos Charles Burke Elbrick.

- VPR (Vanguarda Popular Revolucionária): organização revolucionária que defendia a luta armada e a implantação do socialismo no Brasil. Atuou por meio da guerrilha urbana e tentou desenvolver focos de guerrilha rural. Um de seus integrantes mais conhecidos foi o capitão do Exército Carlos Lamarca, que desertou das Forças Armadas em 1969 e posteriormente também integrou o MR-8.

- Molipo (Movimento de Libertação Popular): organização criada no início da década de 1970 principalmente por antigos integrantes da ALN, vários deles retornados de treinamento guerrilheiro realizado em Cuba. Pretendia reorganizar a luta armada contra o regime, mas foi rapidamente atingida pelos órgãos de repressão.

- VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares): organização surgida em 1969 a partir da união de setores da VPR com o COLINA. Defendia uma revolução socialista e participou de ações armadas e assaltos destinados ao financiamento da organização. Divergências internas provocaram posteriormente uma divisão e a reorganização da VPR.

- COLINA (Comando de Libertação Nacional): organização revolucionária surgida principalmente em Minas Gerais e formada por militantes provenientes de setores da esquerda marxista. Defendia a derrubada do regime por meio da luta armada e participou de ações de guerrilha urbana. Em 1969, parte de seus integrantes se uniu a setores da VPR para formar a VAR-Palmares.


2. Movimentos estudantis


Os estudantes tiveram participação importante na oposição ao regime militar, principalmente durante a segunda metade da década de 1960. Universidades e organizações estudantis tornaram-se espaços de mobilização contra a repressão política, as restrições às liberdades públicas e determinadas medidas adotadas pelo governo na área educacional.

As mobilizações incluíram assembleias, manifestações, atividades culturais e passeatas. Entre os episódios de maior repercussão esteve a Passeata dos Cem Mil, realizada no Rio de Janeiro em junho de 1968. Havia estudantes ligados a diferentes correntes políticas, incluindo grupos marxistas, mas seria incorreto considerar todo o movimento estudantil revolucionário. Muitos participantes reivindicavam principalmente liberdade política, autonomia universitária e retorno à democracia.


3. Ligas Camponesas


As Ligas Camponesas tiveram maior importância política antes do golpe de 1964. Surgidas principalmente no Nordeste durante as décadas de 1950 e 1960, organizaram trabalhadores rurais na defesa de melhores condições de trabalho, acesso à terra e reforma agrária. Francisco Julião tornou-se uma de suas principais lideranças.

Após o golpe de 1964, as Ligas foram duramente reprimidas, suas lideranças sofreram perseguições, prisões ou exílio e a organização foi praticamente desarticulada. Dessa forma, sua atuação durante a ditadura ocorreu sobretudo nos primeiros momentos do regime e por meio da resistência de antigos integrantes e trabalhadores rurais vinculados às lutas sociais no campo.


4. Movimentos operários


Os trabalhadores urbanos também exerceram papel importante na oposição ao regime. Durante os primeiros anos da ditadura, o governo interveio em sindicatos, cassou dirigentes e estabeleceu mecanismos de controle sobre a organização sindical. Apesar dessas restrições, ocorreram manifestações e greves, como as de Contagem, em Minas Gerais, e Osasco, em São Paulo, no ano de 1968.

A mobilização operária ganhou nova força a partir de 1978, especialmente na região do ABC Paulista. Metalúrgicos realizaram grandes greves por reajustes salariais, melhores condições de trabalho e maior autonomia sindical. Embora existissem militantes socialistas e comunistas dentro do movimento sindical, suas reivindicações não podem ser reduzidas à oposição ao capitalismo. As greves reuniram trabalhadores com diferentes orientações políticas e contribuíram para ampliar a pressão social pela abertura política e pela redemocratização.


Setores religiosos e movimentos de defesa dos direitos humanos


A oposição à ditadura também contou com a atuação de setores religiosos, especialmente de parcelas da Igreja Católica e de algumas denominações protestantes. A relação da Igreja Católica com o regime não permaneceu constante. Parte de sua hierarquia apoiou a deposição de João Goulart em 1964, mas, nos anos seguintes, o aumento da repressão e as denúncias de tortura levaram bispos, padres, religiosos e leigos a assumir posições cada vez mais críticas.

Dom Hélder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns estiveram entre os religiosos que denunciaram violações dos direitos humanos. Em São Paulo, a Comissão Justiça e Paz, criada em 1972, auxiliou presos políticos, perseguidos e familiares de desaparecidos, além de reunir informações sobre prisões e abusos cometidos pelos órgãos repressivos. Igrejas, pastorais e outras entidades religiosas também funcionaram como espaços de proteção, organização comunitária e denúncia. Essa frente de resistência ganhou importância sobretudo quando muitas organizações políticas se encontravam na clandestinidade ou já haviam sido desarticuladas, ajudando a transformar a defesa dos direitos humanos em uma das principais formas de contestação ao regime durante a década de 1970.

 

A atuação da imprensa alternativa

Durante a Ditadura Militar, a imprensa alternativa tornou-se um importante espaço de oposição política, crítica social e circulação de informações que frequentemente não encontravam espaço nos grandes veículos de comunicação. Jornais e revistas como "O Pasquim", "Opinião", "Movimento" e "Em Tempo" abordavam temas como censura, repressão, desigualdades sociais, política econômica e violações de direitos. Muitos desses periódicos utilizavam humor, ironia, charges e linguagem indireta para contornar parcialmente os mecanismos de censura.

A atuação desses veículos foi especialmente relevante porque ampliou o debate público em um contexto de forte controle sobre a informação. Jornalistas, intelectuais, artistas e militantes participaram dessa produção, formando uma rede de circulação de ideias contrárias ao regime. Diversas publicações sofreram apreensões, censura prévia, perseguições e dificuldades financeiras, mas conseguiram contribuir para a formação de uma cultura política de oposição. A imprensa alternativa também teve papel importante na aproximação entre diferentes setores da sociedade civil e, ao longo da década de 1970, ajudou a fortalecer as discussões sobre liberdade de expressão, direitos políticos e redemocratização.

 

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Atualizado em 07/10/2026


Por Jefferson Evandro M. Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).

 

Fontes de pesquisa utilizadas na elaboração do artigo:

 

FICO, Carlos. História do Brasil Contemporâneo – da morte de Vargas aos dias atuais. São Paulo, SP: Contexto, 2015.

PILETTI, Nelson. História do Brasil. São Paulo: Ática, 1990.



Bibliografia indicada sobre o tema

 

FICO, Carlos. O Regime Militar no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2004.

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