Guerrilha do Araguaia: o que foi, contexto histórico, objetivos e como terminou
A Guerrilha do Araguaia foi um movimento armado organizado pelo PCdoB contra a ditadura militar, reprimido pelas Forças Armadas entre 1972 e 1974, com mortes, desaparecimentos e graves violações dos direitos humanos.
Tropas do exército na Guerrilha do Araguaia
|
O que foi
A Guerrilha do Araguaia foi um movimento de luta armada organizado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) contra a ditadura militar brasileira. Desenvolveu-se em uma área rural situada às margens do rio Araguaia, principalmente no sul do Pará e no norte do atual estado do Tocantins. Na época dos acontecimentos, essa última área ainda pertencia ao estado de Goiás, pois o Tocantins somente foi criado em 1988.
A organização dos guerrilheiros na região começou na segunda metade da década de 1960, mas os confrontos armados ocorreram principalmente entre abril de 1972 e o final de 1974. No início de 1975, as Forças Armadas consideravam o movimento praticamente destruído.
Contexto histórico
Desde o golpe de 1964, o Brasil era governado por uma ditadura marcada pela concentração do poder político, cassação de mandatos, perseguição aos opositores, censura aos meios de comunicação e restrição das liberdades democráticas. Partidos políticos foram extintos, organizações de esquerda passaram à clandestinidade e diferentes grupos começaram a discutir formas de resistência ao regime.
O endurecimento político tornou-se ainda maior após a publicação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968. O AI-5 permitiu o fechamento do Congresso Nacional, ampliou as cassações políticas, suspendeu garantias constitucionais e fortaleceu os órgãos responsáveis pela repressão. Diante da impossibilidade de atuação legal, algumas organizações de esquerda adotaram a luta armada urbana ou rural.
Nesse contexto, o PCdoB decidiu organizar uma guerrilha no campo. Seus dirigentes acreditavam que uma revolução poderia começar em áreas rurais afastadas, conquistar o apoio dos camponeses e, posteriormente, avançar para outras regiões do país.
Origem e organização
A preparação do movimento começou por volta de 1966 e 1967, quando militantes do PCdoB passaram a se instalar discretamente na região do Araguaia. Muitos chegaram ao local utilizando nomes falsos e apresentando-se como comerciantes, agricultores, professores, profissionais da saúde ou pequenos proprietários rurais.
A área foi escolhida por possuir florestas densas, rios, serras e poucas estradas, condições consideradas favoráveis à atuação de pequenos grupos armados. A presença limitada do Estado, os conflitos pela posse da terra e as dificuldades enfrentadas pela população rural também foram avaliados pelos organizadores.
Durante vários anos, os militantes procuraram conhecer o território, estabelecer relações com os moradores e adaptar-se à vida na floresta. Alguns prestavam serviços médicos, ensinavam técnicas agrícolas, comercializavam produtos ou ajudavam famílias locais. Entretanto, a maior parte da população não conhecia os objetivos políticos e militares do grupo.
Inspirações políticas e revolucionárias
A Guerrilha do Araguaia foi influenciada principalmente pela experiência da Revolução Chinesa, concluída com a vitória comunista em 1949. Inspirado nas ideias de Mao Tsé-Tung, o PCdoB defendia a estratégia da guerra popular prolongada, segundo a qual a revolução deveria começar no campo, formar bases de apoio entre os camponeses e cercar progressivamente as cidades.
A Revolução Cubana de 1959 também exerceu influência sobre os movimentos revolucionários latino-americanos. Contudo, a organização do Araguaia aproximava-se mais diretamente do modelo maoista do que da estratégia cubana baseada na formação de um pequeno foco guerrilheiro.
Principais objetivos:
• Derrubar a ditadura militar por meio de uma revolução armada.
• Organizar uma base revolucionária em uma região rural distante dos principais centros urbanos.
• Conquistar gradualmente o apoio dos camponeses e formar um movimento popular de maior alcance.
• Implantar no Brasil um governo socialista dirigido pelos trabalhadores.
• Combater a concentração fundiária, a exploração dos trabalhadores rurais e as desigualdades sociais.
• Expandir a luta revolucionária do campo para outras regiões do país.
Quem participou
O movimento foi organizado e dirigido pelo Partido Comunista do Brasil. Aproximadamente 70 militantes foram enviados para a região ao longo dos anos. Entre eles estavam estudantes, professores, médicos, enfermeiros, engenheiros, operários, advogados e antigos integrantes do movimento estudantil.
Maurício Grabois foi um dos principais dirigentes políticos e militares presentes na área. Também tiveram participação destacada Osvaldo Orlando da Costa, conhecido como Osvaldão, Ângelo Arroyo, João Carlos Haas Sobrinho, André Grabois e Dinaelza Santana Coqueiro, conhecida como Dina.
Elza Monnerat atuou principalmente na preparação e no apoio logístico ao movimento. João Amazonas, importante dirigente do PCdoB, participou da definição política da estratégia, mas não comandou diretamente os combates na região.
Os guerrilheiros foram divididos em três destacamentos, denominados A, B e C. Cada grupo ocupava uma parte do território e possuía seus próprios responsáveis militares. Acima deles estava a Comissão Militar, encarregada de coordenar as ações gerais.
Relação com a população local
Os militantes procuraram aproximar-se de camponeses, posseiros, garimpeiros, indígenas e pequenos comerciantes da região. A oferta de serviços médicos, a alfabetização e a ajuda em atividades cotidianas contribuíram para que alguns guerrilheiros fossem bem recebidos pelas comunidades.
O apoio popular, entretanto, permaneceu limitado. Muitos moradores desconheciam a existência do projeto revolucionário, enquanto outros foram obrigados a colaborar com os guerrilheiros ou com as forças militares. Quando os confrontos começaram, a população local ficou submetida à vigilância, às prisões, aos interrogatórios e às ameaças.
Alguns camponeses auxiliaram os guerrilheiros como guias, fornecedores de alimentos ou colaboradores. Outros forneceram informações ao Exército, voluntariamente ou sob pressão. Por esse motivo, não é correto afirmar que todos os agricultores da região apoiaram ou combateram ao lado da guerrilha.
Início dos confrontos
As Forças Armadas descobriram a presença dos militantes e iniciaram a primeira ofensiva em abril de 1972. Os guerrilheiros ainda não haviam concluído sua preparação nem iniciado formalmente a revolução. Dessa maneira, o confronto começou por iniciativa do Estado, que procurava eliminar o grupo antes que ele ampliasse suas bases de apoio.
Nas primeiras operações, os militares encontraram dificuldades para atuar na floresta. Muitos soldados desconheciam o terreno, enquanto os guerrilheiros possuíam maior familiaridade com as trilhas, os rios e os locais de abastecimento. Pequenos grupos conseguiam deslocar-se rapidamente e evitar combates prolongados.
Os guerrilheiros realizaram emboscadas, atacaram patrulhas, obtiveram armas e procuraram difundir mensagens políticas entre os moradores. Apesar de algumas vitórias iniciais, encontravam-se em grande desvantagem numérica e material diante das Forças Armadas.
As campanhas militares
A repressão à Guerrilha do Araguaia ocorreu em diferentes etapas. A primeira campanha militar foi realizada entre abril e junho de 1972. Tropas do Exército entraram na região para localizar e prender os militantes, mas não conseguiram eliminar o movimento.
Uma nova ofensiva aconteceu entre setembro e outubro do mesmo ano. Nessa fase, conhecida como Operação Papagaio, foram empregados contingentes maiores, helicópteros e unidades treinadas para atuar em áreas de mata. Ainda assim, parte considerável dos guerrilheiros conseguiu escapar.
Após as dificuldades iniciais, os militares modificaram sua estratégia. Durante a Operação Sucuri, desenvolvida principalmente em 1973, agentes infiltraram-se entre os moradores, mapearam trilhas, identificaram colaboradores e reuniram informações sobre os guerrilheiros. Integrantes das Forças Armadas passaram a viver disfarçados na região, apresentando-se como trabalhadores, comerciantes ou funcionários públicos.
A ofensiva final, conhecida como Operação Marajoara, começou em outubro de 1973. Nessa etapa, as tropas utilizaram informações acumuladas anteriormente, criaram bases militares, controlaram a circulação de pessoas e alimentos e organizaram grupos especializados em perseguição na floresta. A ordem deixou de ser apenas prender os guerrilheiros e passou a envolver sua eliminação física.
Repressão contra os moradores
A população rural sofreu diretamente os efeitos das operações. Casas e plantações foram destruídas, alimentos foram confiscados e moradores foram detidos para interrogatórios. Há registros de torturas, ameaças, espancamentos e prisões realizadas sem qualquer ordem judicial.
Camponeses suspeitos de colaborar com a guerrilha foram obrigados a servir como guias das tropas ou fornecer informações. Alguns desapareceram ou morreram durante a repressão. As violações atingiram inclusive pessoas que não possuíam ligação política com o PCdoB.
O controle exercido pelas forças militares dificultou o abastecimento dos guerrilheiros. Sem alimentos, medicamentos e contato regular com os moradores, os combatentes ficaram progressivamente isolados e enfraquecidos.
Como terminou
Entre o final de 1973 e dezembro de 1974, a maioria dos integrantes da guerrilha foi morta ou capturada. Maurício Grabois morreu em dezembro de 1973, enquanto Osvaldão foi morto em 1974. Outros combatentes conseguiram abandonar a área, entre eles Ângelo Arroyo, que posteriormente relatou à direção do PCdoB o que havia ocorrido.
As Forças Armadas conseguiram destruir os destacamentos e impedir que o movimento alcançasse seu objetivo de iniciar uma revolução rural. No começo de 1975, a guerrilha já estava militarmente derrotada, embora as autoridades mantivessem as operações e seus resultados sob sigilo.
Diversos militantes foram capturados vivos antes de desaparecer. Seus corpos não foram entregues às famílias e, em muitos casos, os locais de sepultamento continuam desconhecidos. Depoimentos e investigações posteriores apontaram que prisioneiros foram executados após a captura, prática considerada uma grave violação dos direitos humanos.
Mortos e desaparecidos
Os números relacionados à Guerrilha do Araguaia variam conforme os critérios e as fontes utilizadas. Aproximadamente 70 integrantes do PCdoB participaram diretamente do movimento, e a grande maioria foi morta ou desapareceu durante as operações militares.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos responsabilizou o Estado brasileiro pelo desaparecimento forçado de dezenas de pessoas vinculadas ao episódio. Camponeses também foram mortos, torturados ou desapareceram, mas não existe um levantamento definitivo sobre todas as vítimas entre os moradores da região.
As perdas militares igualmente não são conhecidas com precisão. O sigilo imposto às operações, a destruição de documentos e a divulgação de informações contraditórias dificultaram a elaboração de números definitivos.
Ocultação dos acontecimentos
Durante a ditadura, o governo procurou impedir a divulgação da Guerrilha do Araguaia. A imprensa foi censurada, e as operações militares permaneceram secretas. Muitos soldados eram orientados a não revelar o que haviam presenciado, enquanto documentos oficiais foram ocultados ou destruídos.
Após a derrota do movimento, integrantes das Forças Armadas retornaram à região para retirar ou transferir restos mortais. Essas ações dificultaram a localização dos corpos e contribuíram para que numerosas famílias permanecessem sem informações sobre o destino de seus parentes.
Investigações e buscas
A partir do final da década de 1970, familiares de mortos e desaparecidos começaram a pressionar o Estado por esclarecimentos. Expedições foram realizadas na região para recolher depoimentos e localizar sepultamentos clandestinos.
Em 1982, familiares ingressaram com uma ação judicial para exigir informações sobre as operações e a localização dos corpos. Nas décadas seguintes, diferentes equipes governamentais realizaram escavações e buscas, mas poucos restos mortais foram identificados.
A Comissão Nacional da Verdade, criada em 2011 e encerrada em 2014, investigou o episódio e reconheceu a ocorrência de prisões ilegais, torturas, execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres praticados por agentes do Estado.
Condenação internacional do Brasil
Em 24 de novembro de 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado brasileiro no caso “Gomes Lund e outros versus Brasil”, relacionado à Guerrilha do Araguaia. A decisão responsabilizou o país pelos desaparecimentos forçados e pela ausência de investigações efetivas.
A sentença determinou que o Brasil investigasse os acontecimentos, localizasse os restos mortais, fornecesse informações às famílias e promovesse medidas de reparação. Também estabeleceu que graves violações dos direitos humanos não poderiam permanecer protegidas por mecanismos que impedissem sua investigação.
Resultados e consequências
Militarmente, a Guerrilha do Araguaia terminou com a vitória das Forças Armadas e a destruição dos destacamentos do PCdoB. O movimento não conseguiu criar uma ampla base camponesa nem expandir a luta revolucionária para outras regiões.
Politicamente, o episódio demonstrou os limites da estratégia de luta armada rural adotada pelo partido. O isolamento geográfico, a reduzida participação popular, a desigualdade de forças e a capacidade repressiva do Estado foram decisivos para a derrota.
Para a população local, os confrontos deixaram consequências duradouras. Prisões, torturas, mortes, desaparecimentos e deslocamentos afetaram famílias que, durante muitos anos, permaneceram sem reconhecimento público ou reparação.
Importância histórica
A Guerrilha do Araguaia foi o principal movimento de guerrilha rural ocorrido durante a ditadura militar brasileira. Sua história permite compreender tanto as formas de resistência armada ao regime quanto os métodos empregados pelo Estado para eliminar seus opositores.
O episódio também ocupa posição central nos debates sobre desaparecimento forçado, direito à memória, acesso aos arquivos públicos e responsabilização por violações dos direitos humanos. A ausência de informações completas e a não localização de muitos corpos mantêm abertas questões fundamentais sobre a atuação do Estado durante a ditadura.
Seu estudo exige uma análise crítica das escolhas políticas dos grupos revolucionários, das limitações da estratégia guerrilheira e da repressão ilegal promovida por agentes estatais. Dessa forma, o Araguaia permanece como um dos acontecimentos mais controversos e dolorosos da história política brasileira do século XX.
A correção dos desaparecimentos e da duração dos combates está amparada pelas investigações da Comissão Nacional da Verdade e pela sentença do caso “Gomes Lund e outros versus Brasil”.
_____________________________
Atualizado em 30/07/2026
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Fontes de pesquisa utilizadas na elaboração do artigo:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerrilha_do_Araguaia
Atuação de mulheres e homens negros na Guerrilha do Araguaia é analisada em estudo da USP
FAUSTO, Boris. O Brasil republicano: sociedade e instituições. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.
PILETTI, Nelson. História do Brasil. São Paulo: Ática, 1990.
AMORIM, Carlos. Araguaia - histórias de amor e de guerra. Rio de Janeiro: Record, 2001.