Regência Trina Permanente: o que foi, características e como terminou
A Regência Trina Permanente foi o governo provisório de 1831, que administrou o Brasil durante a menoridade de D. Pedro II, em meio a conflitos políticos e revoltas regionais.
O que foi
A Regência Trina Permanente foi um governo estabelecido em 1831 para administrar o Brasil durante a menoridade de D. Pedro II, após a abdicação de seu pai, D. Pedro I. Formada por três regentes eleitos pela Assembleia Geral, governou o país entre junho de 1831 e outubro de 1835. Esse período foi marcado por disputas políticas entre diferentes grupos das elites brasileiras, conflitos sociais, revoltas regionais e reformas administrativas que modificaram a organização do Império.
Contexto histórico
Em 7 de abril de 1831, D. Pedro I abdicou do trono brasileiro, após enfrentar uma grave crise política caracterizada pela oposição de setores liberais, dificuldades econômicas e conflitos entre brasileiros e portugueses. Seu filho, Pedro de Alcântara, tinha apenas cinco anos de idade e não poderia assumir pessoalmente o governo.
De acordo com a Constituição de 1824, o Brasil deveria ser administrado por regentes até que o herdeiro do trono atingisse a maioridade. Dessa forma, teve início o Período Regencial (1831–1840), uma das fases de maior instabilidade política do Império brasileiro.
Inicialmente, foi formada uma Regência Trina Provisória, que governou entre abril e junho de 1831. Em 17 de junho daquele ano, a Assembleia Geral elegeu os integrantes da Regência Trina Permanente, que deveriam exercer o poder durante quatro anos.
A ausência de um imperador exercendo diretamente suas funções intensificou as disputas entre grupos que defendiam maior centralização política e aqueles favoráveis à ampliação da autonomia das províncias. Ao mesmo tempo, revoltas militares, conflitos sociais e movimentos populares ameaçavam a estabilidade do governo imperial.
Composição política
A Regência Trina Permanente era composta por três integrantes eleitos pela Assembleia Geral, formada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado.
-
Francisco de Lima e Silva: brigadeiro do Exército, que já havia participado da Regência Trina Provisória. Representava o setor militar e defendia a manutenção da ordem política e institucional.
-
João Bráulio Muniz: deputado pela província do Maranhão, representante dos interesses políticos de setores das províncias do Norte do Império.
-
José da Costa Carvalho: deputado pela província de São Paulo, ligado às elites políticas e econômicas do centro-sul brasileiro. Posteriormente, recebeu o título de marquês de Monte Alegre.
Os três regentes estavam associados ao predomínio político dos liberais moderados, grupo que defendia a continuidade da monarquia constitucional, a preservação da unidade territorial e a manutenção da ordem social.
Características principais e fatos históricos do período:
-
Nomeação de Diogo Antônio Feijó: os regentes nomearam o padre e deputado Diogo Antônio Feijó para o Ministério da Justiça, em julho de 1831. Sua principal missão era preservar a ordem pública e combater os movimentos considerados ameaças ao governo regencial.
-
Criação da Guarda Nacional (1831): instituída pela Lei de 18 de agosto de 1831, era uma força armada formada por cidadãos que preenchiam determinados requisitos legais. Tinha como finalidade auxiliar na manutenção da ordem interna e na defesa das instituições imperiais. Na prática, fortaleceu a influência dos grandes proprietários rurais, que passaram a exercer importante participação em seu comando.
-
Reorganização das forças militares: o governo procurou reduzir a influência política do Exército e fortalecer os mecanismos de controle sobre as tropas, diante das frequentes revoltas militares.
-
Aprovação do Código de Processo Criminal (1832): a legislação ampliou as atribuições dos juízes de paz, que passaram a exercer importantes funções policiais e judiciais. Como esses juízes eram eleitos localmente, a medida fortaleceu a influência dos grupos políticos e econômicos regionais.
-
Crise política de 1832: Diogo Antônio Feijó participou de uma tentativa de reorganização do poder político que envolvia a transformação da Câmara dos Deputados em Assembleia Constituinte. A iniciativa fracassou, e Feijó deixou o Ministério da Justiça em agosto daquele ano.
-
Aprovação do Ato Adicional (1834): essa reforma da Constituição de 1824 ampliou a autonomia administrativa das províncias, criou assembleias legislativas provinciais, estabeleceu o Município Neutro do Rio de Janeiro e determinou a substituição da Regência Trina pela Regência Una.
Correntes políticas do período
Durante a Regência Trina Permanente, três grandes correntes políticas disputavam o poder. Embora suas principais lideranças pertencessem às elites brasileiras, apresentavam diferenças quanto à organização do Estado e à distribuição da autoridade política.
1.Restauradores (caramurus)
-
Defendiam o retorno de D. Pedro I ao trono brasileiro.
-
Reuniam comerciantes portugueses, antigos funcionários do governo e setores conservadores da sociedade.
-
Eram favoráveis à preservação de uma monarquia com forte autoridade central.
-
Tinham entre suas principais lideranças José Bonifácio de Andrada e Silva.
-
Perderam força política após a morte de D. Pedro I, ocorrida em Portugal, em setembro de 1834.
2. Liberais Exaltados (jurujubas ou farroupilhas)
-
Defendiam maior autonomia política e administrativa para as províncias.
-
Reuniam setores das classes médias urbanas, militares, profissionais liberais e integrantes de grupos políticos regionais.
-
Parte de seus representantes defendia propostas republicanas e federalistas.
-
Criticavam a concentração do poder nas mãos do governo central.
-
Algumas de suas lideranças participaram de movimentos de contestação à autoridade regencial.
3. Liberais Moderados (chimangos)
-
Defendiam a manutenção da monarquia constitucional e da unidade territorial brasileira.
-
Eram contrários ao retorno de D. Pedro I ao poder.
-
Aceitavam reformas políticas limitadas, desde que não ameaçassem a ordem social e a integridade do Império.
-
Reuniam proprietários rurais, comerciantes e integrantes das elites políticas.
-
Defendiam a preservação da escravidão e das estruturas fundamentais da sociedade imperial.
-
Entre suas principais lideranças estavam Diogo Antônio Feijó, Bernardo Pereira de Vasconcelos e Evaristo da Veiga.
Revoltas e conflitos sociais durante a Regência Trina Permanente
A Regência Trina Permanente enfrentou importantes conflitos políticos e sociais em diferentes regiões do Brasil. A instabilidade resultava das disputas entre grupos políticos, das dificuldades econômicas e da insatisfação de setores da população com as autoridades imperiais.
Revoltas militares no Rio de Janeiro
Entre 1831 e 1832, ocorreram levantes envolvendo unidades militares na capital do Império. Esses movimentos expressavam insatisfações com o governo regencial e com medidas destinadas a reduzir a influência política das tropas. A Guarda Nacional foi utilizada para auxiliar na repressão a essas rebeliões.
Cabanada (1832–1835)
Também conhecida como Guerra dos Cabanos, ocorreu principalmente em áreas rurais de Pernambuco e Alagoas. O movimento reuniu diferentes grupos sociais, incluindo pequenos proprietários, indígenas, trabalhadores pobres e escravizados, além de setores restauradores que defendiam o retorno de D. Pedro I. A revolta também apresentou reivindicações relacionadas às condições de vida e aos conflitos sociais da região.
Rusga (1834)
Ocorreu na província de Mato Grosso, especialmente em Cuiabá, envolvendo disputas entre grupos políticos locais. O movimento foi marcado pela violência contra portugueses e seus estabelecimentos comerciais, provocando mortes e destruição de propriedades.
Cabanagem (1835–1840)
Iniciada em janeiro de 1835, na província do Grão-Pará, a Cabanagem reuniu setores populares, indígenas, mestiços e integrantes das elites regionais insatisfeitos com a administração provincial. Os revoltosos chegaram a conquistar o poder em Belém, mas o movimento foi violentamente reprimido nos anos seguintes. Sua fase inicial ocorreu ainda durante a Regência Trina Permanente.
Esses conflitos demonstraram a fragilidade da autoridade central e as profundas tensões políticas e sociais existentes no Brasil durante o Período Regencial.
Como terminou
A Regência Trina Permanente passou por mudanças importantes com a aprovação do Ato Adicional, em 12 de agosto de 1834. Essa reforma constitucional estabeleceu que o governo regencial passaria a ser exercido por apenas uma pessoa, eleita para um mandato de quatro anos.
Diferentemente do sistema anterior, no qual os três regentes eram escolhidos pela Assembleia Geral, o novo modelo previa a eleição do regente único por um sistema de votação indireta, no qual os eleitores legalmente habilitados participavam da escolha.
Em abril de 1835, Diogo Antônio Feijó venceu a eleição para o cargo de regente único. Entretanto, a Regência Trina Permanente não foi encerrada imediatamente com a aprovação do Ato Adicional, permanecendo em funcionamento até outubro de 1835.
Em 12 de outubro de 1835, Feijó assumiu o governo, dando início à Regência Una. A mudança procurava tornar a administração imperial mais eficiente, mas não conseguiu eliminar as disputas políticas e as revoltas que continuaram atingindo diferentes províncias brasileiras.
Conclusão
A Regência Trina Permanente representou uma fase importante de reorganização política do Brasil após a abdicação de D. Pedro I. A ausência de um imperador exercendo diretamente o poder colocou em evidência os conflitos entre grupos que disputavam a direção do Estado e defendiam diferentes projetos de organização política. Nesse contexto, as reformas administrativas procuraram conciliar a preservação da unidade territorial com as reivindicações por maior autonomia provincial.
A ampliação de determinados mecanismos de participação política não significou uma transformação profunda da estrutura social brasileira. A escravidão permaneceu como base da economia, enquanto os grandes proprietários rurais conservaram sua influência sobre as instituições locais. A criação da Guarda Nacional e o fortalecimento dos juízes de paz demonstraram como parte das reformas também contribuiu para ampliar o poder das elites regionais.
O período revelou as dificuldades enfrentadas pelo Império na construção de um sistema político estável. A substituição da Regência Trina pela Una, em 1835, representou uma tentativa de reorganização do governo central, mas as tensões entre centralização e autonomia provincial continuaram presentes. Essas disputas seriam fundamentais para os acontecimentos políticos posteriores, incluindo o fortalecimento das tendências centralizadoras e a antecipação da maioridade de D. Pedro II, em 1840.
___________________________________
Atualizado em 09/10/2026
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Fontes de pesquisa utilizadas na elaboração do artigo:
CAMPOS, Raymundo. História do Brasil. São Paulo: Editora Atual, 1991.
BARBEIRO, Heródoto. História do Brasil. São Paulo: Moderna, 1978.
Bibliografia Indicada sobre o tema:
FAZOLI Filho, Arnaldo. O Período Regencial. São Paulo: Ática, 2001.