Questões Discursivas sobre a Revolta dos Malês - com gabarito

teste seus conhecimentos históricos sobre este importante movimento popular brasileiro.

 

Orientações gerais:

Responda com clareza e desenvolva argumentos históricos sobre a Revolta dos Malês. Relacione as condições sociais da época, a atuação dos participantes e as consequências do movimento. Nas questões com textos de apoio, utilize as informações apresentadas e seus conhecimentos; nos itens a e b, responda separadamente. Serão valorizadas a contextualização, a precisão dos conceitos e a análise crítica, evitando generalizações sobre os africanos e suas religiões.



1. Na passagem da noite de 24 para a madrugada de 25 de janeiro de 1835, uma insurreição mobilizou africanos em Salvador. Situe a Revolta dos Malês no período político brasileiro e explique como a escravidão e a dominação racial contribuíram para o conflito.



2. A expressão “malê” identifica uma condição religiosa, e não uma única origem étnica. Explique seu significado e caracterize os participantes da revolta, considerando suas origens africanas e suas condições jurídicas. Por que seria incorreto afirmar que todos os africanos de Salvador eram malês?



3. Leia o trecho abaixo e responda aos itens.

Em Salvador, o trabalho de muitos escravizados ocorria nas ruas, em atividades como transporte de pessoas e mercadorias e prestação de serviços. Os chamados escravizados de ganho obtinham rendimentos e entregavam ao senhor uma quantia estabelecida. Sua circulação permitia contatos cotidianos, embora permanecessem submetidos ao cativeiro e à vigilância.

Nesse ambiente urbano, africanos escravizados e libertos podiam construir vínculos de trabalho, amizade e solidariedade. A possibilidade de conversar, encontrar conhecidos e compartilhar experiências ajudava a estabelecer redes sociais. Esses espaços de convivência também podiam favorecer a organização de ações de resistência.

a) Explique como as características do trabalho urbano poderiam favorecer a articulação de uma revolta.

b) Diferencie a circulação dos escravizados de ganho da liberdade jurídica e explique por que os libertos também poderiam ter motivos para contestar a ordem social.



4. Reuniões religiosas, aprendizado do árabe e circulação de escritos islâmicos fizeram parte da experiência dos malês na Bahia. Analise como essas práticas poderiam fortalecer a organização coletiva e explique por que a dimensão religiosa não basta, isoladamente, para compreender a revolta.



5. O Império brasileiro mantinha o catolicismo como religião oficial. Considerando a Constituição de 1824 e a realidade dos africanos muçulmanos, explique os limites da tolerância religiosa naquele contexto. Diferencie a permissão restrita de cultos não católicos de uma situação de igualdade religiosa.



6. A conspiração foi denunciada antes que os insurgentes executassem integralmente seus planos. Explique como essa denúncia afetou o movimento e relacione a reação das forças repressivas à derrota dos revoltosos. Em sua resposta, diferencie o insucesso militar da ausência de planejamento.



7. Analise o texto de apoio abaixo e responda aos itens.

Depois da derrota dos malês, as autoridades puniram envolvidos no levante com medidas como prisão, açoites, deportação e execução. A reação também alimentou a suspeita contra africanos que viviam em Salvador, alcançando pessoas cuja condição de libertas não assegurava proteção diante das perseguições.

Para estudar esse processo, os historiadores utilizam documentos policiais e judiciais, além de outros vestígios. Esses registros oferecem informações sobre o movimento, mas foram produzidos em uma situação de repressão. Acusações, perguntas e depoimentos precisam ser analisados levando em conta as relações de poder que marcaram sua elaboração.

a) Explique como a repressão ultrapassou a punição individual dos participantes e reforçou o controle sobre a população africana.

b) Apresente dois cuidados necessários ao utilizar interrogatórios e acusações como fontes históricas da revolta.



8. Um estudante afirmou: “Como os malês resistiram à escravidão, podemos concluir que possuíam um programa idêntico ao do movimento abolicionista brasileiro do final do século XIX”. Avalie criticamente essa interpretação, considerando o contexto de 1835 e os limites das evidências sobre a sociedade que os insurgentes pretendiam construir.



9. Imagine que um museu prepare uma exposição sobre a resistência à escravidão no Brasil. Justifique a inclusão da Revolta dos Malês nessa exposição e indique como apresentá-la de modo a reconhecer o protagonismo africano sem tratar a população escravizada como um grupo culturalmente homogêneo.

 

10. Leia o texto abaixo e responda à questão com base em sua interpretação e em seus conhecimentos históricos.

"A revolta de 1835 em Salvador não foi um levante desordenado, mas uma conspiração cuidadosamente planejada por africanos escravizados e libertos, majoritariamente nagôs e muçulmanos. A religião islâmica forneceu não apenas uma forte identidade cultural comum em meio à escravidão, mas também a base ideológica e organizacional para a rebelião, permitindo que os líderes utilizassem a escrita em árabe, os amuletos protetores e as redes de solidariedade para se comunicar e articular o movimento nas ruas da capital baiana."

Adaptado de: REIS, João José. "Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835". São Paulo: Companhia das Letras, 2003.


Com base na análise do texto e em seus conhecimentos históricos, explique de que maneira a religião islâmica contribuiu para a organização da Revolta dos Malês e analise o significado desse movimento como forma de resistência à escravidão no Brasil.





Gabarito explicativo:



1. A revolta ocorreu em Salvador, na Bahia, durante o Período Regencial, quando Pedro II ainda era menor de idade e o Império era governado por regentes. A escravidão submetia pessoas à propriedade de senhores, ao trabalho compulsório e à violência. A dominação racial também restringia oportunidades e submetia africanos a discriminação e controle. O levante deve ser compreendido nesse contexto de opressão, e não apenas como mais uma disputa entre grupos políticos das elites regenciais.



2. Malê designava o africano muçulmano, sendo um termo associado à palavra iorubá imale. O movimento reuniu africanos escravizados e libertos, com forte presença nagô, isto é, de povos de língua iorubá, e participação de outros grupos, como os haussás. A liderança muçulmana não tornou o levante exclusivamente religioso nem impediu a adesão de não muçulmanos. Os africanos de Salvador possuíam diferentes origens, crenças e trajetórias; portanto, africano, nagô e malê não são termos equivalentes.



3. a) O deslocamento pelas ruas e os encontros no trabalho permitiam trocar informações, reconhecer possíveis aliados e construir relações de confiança. Essas redes podiam servir à preparação de ações coletivas. A circulação urbana favorecia contatos, mas não eliminava a vigilância nem garantia que todos os trabalhadores aderissem à revolta.

b) O escravizado de ganho continuava pertencendo juridicamente a um senhor, a quem devia entregar parte do que obtinha, e permanecia sujeito a castigos e venda. Circular ou administrar parte dos rendimentos não significava ser livre. Já os libertos haviam saído do cativeiro, mas podiam enfrentar racismo, restrições e perseguições. Assim, a diferença jurídica entre ambos não excluía experiências de opressão nem a possibilidade de solidariedade.



4. As práticas religiosas criavam espaços de encontro, aprendizagem e confiança, nos quais a identidade muçulmana podia fortalecer vínculos. A leitura e a escrita do árabe tinham funções religiosas e evidenciam saberes preservados e transmitidos por africanos. Contudo, reduzir a revolta à fé islâmica apaga a escravidão, a dominação branca e as solidariedades étnicas. Religião, condições sociais e identidades africanas se combinaram na mobilização.



5. A Constituição de 1824 estabelecia o catolicismo como religião do Império e admitia outras religiões em culto doméstico ou particular, em locais sem aparência exterior de templo. Essa permissão não colocava todas as crenças em condições iguais. Os africanos muçulmanos viviam, além disso, em uma sociedade escravista que os submetia a preconceitos e suspeitas. É necessário distinguir a tolerância limitada prevista na norma da liberdade efetivamente experimentada por grupos sujeitos à coerção e à vigilância.



6. A denúncia alertou as autoridades e provocou a intervenção das forças de segurança antes da execução completa dos planos, comprometendo o elemento surpresa e a coordenação pretendida. Os insurgentes enfrentaram forças que dispunham de recursos militares para contê-los e foram derrotados em poucas horas. Isso não significa que agiram sem organização: havia articulação prévia e intenção de ampliar a insurgência. Planejar uma ação não assegura sua vitória, sobretudo quando o adversário é avisado e consegue mobilizar a repressão.



7. a) A reação ampliou a vigilância e a hostilidade contra africanos, incluindo libertos, e associou sua presença à ameaça de novas insurreições. Prisões, castigos e deportações expressavam a tentativa de preservar a ordem escravista pela intimidação. Essa extensão da suspeita mostra que a repressão também se dirigiu a uma população identificada por sua origem.

b) Primeiro, é preciso considerar quem produziu o documento, com qual finalidade e em quais condições: interrogatórios repressivos não são relatos neutros. Segundo, deve-se confrontar acusações e depoimentos com outras evidências. Pessoas interrogadas podiam negar vínculos ou omitir informações para se proteger, enquanto autoridades podiam interpretar práticas culturais como indícios de conspiração. Isso exige crítica das fontes, sem descartá-las automaticamente.



8. A afirmação aproxima movimentos de contextos diferentes e transforma a resistência ao cativeiro em prova de um programa que não está inteiramente documentado. Os insurgentes de 1835 enfrentaram a ordem escravista e buscaram alterar as relações de poder, mas os detalhes da sociedade que pretendiam organizar permanecem parcialmente incertos. Não se deve atribuir automaticamente a eles as propostas, alianças e estratégias do abolicionismo de décadas posteriores. Reconhecer essa diferença preserva a importância da revolta e evita apresentar como certeza aquilo que as fontes não permitem demonstrar.



9. A revolta mostra que africanos escravizados e libertos foram sujeitos ativos da história: construíram redes, mobilizaram conhecimentos e enfrentaram a dominação. Sua inclusão amplia a compreensão da resistência para além das fugas e dos quilombos, incorporando a insurreição urbana. A exposição poderia apresentar escritos, práticas religiosas, ocupações e trajetórias dos participantes, distinguindo origem étnica, crença e condição jurídica. Também deveria explicar a derrota e a repressão, sem reduzir os insurgentes a vítimas passivas ou supor que todos os africanos compartilhavam uma única identidade e os mesmos objetivos.

 

10. A religião islâmica desempenhou um papel fundamental na organização da Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador, em janeiro de 1835, pois fortaleceu os vínculos culturais, religiosos e de solidariedade entre africanos escravizados e libertos. O compartilhamento de práticas religiosas, o conhecimento da escrita árabe e a existência de redes de comunicação facilitaram o planejamento e a mobilização dos participantes. A revolta demonstrou que os africanos não aceitavam passivamente a escravidão, mas desenvolviam estratégias organizadas de resistência e contestação à ordem escravista. Embora tenha sido reprimido pelas autoridades, o movimento revelou a capacidade de articulação política dos africanos e evidenciou as tensões sociais e raciais existentes na sociedade brasileira durante o Período Regencial.

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 11/10/2026

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