História das religiões de Matriz Africana no Brasil: origem, exemplos, resistência, perseguição e legado

A história das religiões de matriz africana no Brasil revela um processo de preservação, adaptação e resistência cultural das populações negras, que deu origem a tradições como o Candomblé e a Umbanda.

Conheça a história das religiões de matriz africana no Brasil
Conheça a história das religiões de matriz africana no Brasil


O que são as religiões de matriz africana?


As religiões de matriz africana no Brasil são tradições religiosas formadas a partir de conhecimentos, crenças, rituais, valores e práticas trazidos por diferentes povos africanos durante o período da escravidão. Essas tradições foram preservadas, reorganizadas e transformadas em território brasileiro, dando origem a formas religiosas próprias, vinculadas às experiências históricas das populações negras.

Não existe, porém, uma única religião africana nem uma tradição afro-brasileira homogênea. Povos provenientes de diferentes regiões da África possuíam línguas, costumes, formas de organização e sistemas religiosos distintos. No Brasil, essas heranças encontraram-se entre si e também entraram em contato com o catolicismo, práticas indígenas, espiritismo e outras manifestações religiosas.

Por essa razão, expressões como Candomblé, Umbanda, Batuque, Tambor de Mina, Xangô do Nordeste, Jarê e Terecô designam tradições diferentes, embora compartilhem determinadas raízes históricas relacionadas à presença africana no Brasil.



Origem africana e contexto histórico


A formação das religiões afro-brasileiras está diretamente relacionada ao tráfico transatlântico de africanos escravizados, que ocorreu de maneira intensa entre os séculos XVI e XIX. Milhões de pessoas foram trazidas à força para o território brasileiro, principalmente de regiões da África Ocidental e da África Centro-Ocidental.

Entre os grupos que tiveram forte influência religiosa estavam povos identificados, de maneira ampla, como iorubás, jejes e bantos. Os iorubás estavam relacionados principalmente a áreas dos atuais Nigéria e Benim. Os jejes provinham de regiões ligadas aos atuais Benim e Togo. Já os povos bantos ocupavam extensas áreas da África Central e Centro-Ocidental, incluindo territórios correspondentes aos atuais Angola e República Democrática do Congo.

Esses povos possuíam suas próprias concepções sobre divindades, ancestrais, forças da natureza, vida comunitária e relação entre o mundo material e o espiritual. Quando chegaram ao Brasil, foram submetidos a uma sociedade escravista que procurava controlar não apenas seu trabalho, mas também muitos aspectos de sua vida cultural e religiosa.



Escravização e preservação das tradições religiosas


A escravidão provocou rupturas profundas na vida das populações africanas. Famílias foram separadas, comunidades foram destruídas e indivíduos pertencentes a grupos distintos passaram a conviver em engenhos, minas, cidades e propriedades rurais.

Mesmo diante dessas condições, os africanos escravizados preservaram conhecimentos religiosos, cantos, ritmos, formas de culto, práticas de cura, rituais funerários, festas e memórias coletivas. Essa preservação não ocorreu de maneira simples. Muitas tradições precisaram ser adaptadas às novas condições encontradas no Brasil.

Em diferentes regiões, pessoas de origens africanas distintas compartilharam práticas e reconstruíram formas religiosas em conjunto. Desse processo surgiram novas tradições que mantinham referências africanas, mas que já apresentavam características próprias da realidade brasileira.

As práticas religiosas também funcionaram como instrumentos de resistência. Manter uma língua ritual, reverenciar ancestrais ou organizar cerimônias coletivas podia representar uma forma de preservar identidades e vínculos comunitários diante da violência da escravidão.



Irmandades, associações e espaços de sociabilidade


Durante os períodos Colonial e Imperial, africanos e seus descendentes criaram diferentes formas de organização coletiva. Entre elas estavam as irmandades religiosas católicas formadas principalmente por pessoas negras, como as dedicadas a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

Embora fossem instituições ligadas ao catolicismo, essas irmandades desempenharam funções sociais importantes. Algumas organizavam festas, auxiliavam integrantes em dificuldades, arrecadavam recursos, promoviam funerais e, em determinados casos, contribuíam para a compra de alforrias.

Esses espaços também favoreciam encontros entre africanos e afrodescendentes. Neles, elementos culturais de origem africana podiam ser preservados ou reinterpretados. A relação entre catolicismo e tradições africanas, entretanto, variava bastante de acordo com a região, o período histórico e os grupos envolvidos.



Formação das religiões afro-brasileiras


As religiões afro-brasileiras não foram simplesmente reproduções das religiões existentes na África. Elas resultaram de processos históricos de reconstrução cultural ocorridos em território brasileiro.

Pessoas originárias de sociedades africanas distintas passaram a compartilhar os mesmos espaços. Essa convivência favoreceu aproximações entre tradições religiosas que, na África, poderiam estar geograficamente separadas. Ao mesmo tempo, ocorreu contato com elementos religiosos indígenas e cristãos.

Dessa forma, as religiões afro-brasileiras foram construídas por meio de permanências, adaptações e transformações. Algumas práticas conservaram referências africanas bastante marcantes, enquanto outras incorporaram diferentes influências presentes na sociedade brasileira.



Candomblé


O Candomblé desenvolveu-se principalmente durante o século XIX, embora suas raízes remontem aos períodos anteriores. Sua consolidação ocorreu com particular força na Bahia, onde diferentes comunidades religiosas organizaram terreiros que se tornaram importantes centros de preservação cultural.

Existem diferentes tradições dentro do Candomblé, frequentemente chamadas de nações. Entre as mais conhecidas estão Ketu, Jeje e Angola. Cada uma possui características próprias, incluindo diferenças nos idiomas litúrgicos, divindades cultuadas, ritmos, cantos e formas de organização ritual.

Nas tradições de origem iorubá, os orixás possuem posição central. Eles estão relacionados a aspectos da natureza, atividades humanas, forças cósmicas e dimensões da experiência social. Entre os mais conhecidos estão Oxalá, Iemanjá, Xangô, Ogum, Oxóssi, Oxum, Iansã e Exu.

Nas tradições jejes, destacam-se os voduns, enquanto nas tradições de origem banta são cultuados os inquices. Essas diferenças demonstram que o Candomblé não pode ser compreendido como uma tradição uniforme.



Umbanda


A Umbanda consolidou-se no início do século XX em um contexto marcado pela urbanização e pelas transformações sociais das cidades brasileiras. Sua formação ocorreu principalmente no Sudeste, embora posteriormente tenha se difundido por grande parte do país.

A religião incorporou elementos de diferentes tradições, entre elas práticas de origem africana, referências indígenas, catolicismo popular e espiritismo. Por esse motivo, existem diversas correntes e formas de praticar a Umbanda.

Em muitos terreiros, as cerimônias envolvem entidades espirituais que se apresentam em categorias como pretos-velhos, caboclos, crianças, boiadeiros, marinheiros e outras. Essas entidades possuem significados simbólicos relacionados à história e à cultura brasileiras.

A Umbanda ganhou grande presença nas cidades ao longo do século XX. Mesmo assim, também sofreu perseguições policiais, preconceito social e ataques motivados por intolerância religiosa.



Outras religiões e tradições afro-brasileiras


As tradições religiosas afro-brasileiras assumiram características diferentes conforme as regiões do país. No Rio Grande do Sul, por exemplo, desenvolveu-se o Batuque, religião marcada pelo culto a divindades de origem africana.

No Maranhão, o Tambor de Mina tornou-se uma das principais tradições afro-brasileiras. Em Pernambuco e Alagoas, manifestações relacionadas ao Xangô do Nordeste adquiriram características próprias.

Na Chapada Diamantina, na Bahia, encontra-se o Jarê, enquanto no Maranhão e no Piauí existe o Terecô. Essas tradições demonstram que a história religiosa afro-brasileira foi construída de formas variadas em diferentes contextos regionais.



O papel dos terreiros


Os terreiros são espaços fundamentais para a organização das religiões afro-brasileiras. Neles são realizados rituais, celebrações, iniciações, festas, consultas religiosas e diversas outras atividades comunitárias.

Historicamente, muitos terreiros funcionaram também como espaços de proteção social. Pessoas encontravam nesses locais redes de solidariedade, assistência e acolhimento em períodos nos quais a população negra possuía pouco acesso a instituições públicas.

Os conhecimentos religiosos costumam ser transmitidos principalmente por meio da convivência e da oralidade. Cantos, histórias, rituais, receitas, conhecimentos sobre plantas, gestos e formas de organização são transmitidos entre gerações.

Por isso, diversos terreiros podem ser considerados importantes espaços de preservação da memória histórica e cultural das populações afro-brasileiras.



Orixás, voduns, inquices e entidades espirituais


Orixás, voduns e inquices pertencem a tradições religiosas africanas diferentes. Embora frequentemente sejam apresentados de maneira conjunta, não devem ser tratados como termos equivalentes em todos os contextos.

Os orixás estão especialmente relacionados às tradições iorubás. Os voduns possuem origem entre povos da região do antigo Daomé, atual Benim, enquanto os inquices aparecem principalmente em tradições de origem banta.

Nas religiões afro-brasileiras, essas divindades podem estar relacionadas à natureza, à ancestralidade, à proteção das comunidades e a diferentes dimensões da existência humana.

Na Umbanda, por sua vez, existe forte presença de entidades espirituais associadas a representações históricas e culturais brasileiras. Pretos-velhos e caboclos estão entre as figuras mais conhecidas.



Sincretismo religioso


O sincretismo religioso foi um dos fenômenos marcantes da história das religiões afro-brasileiras. Durante o período escravista, práticas africanas eram frequentemente reprimidas, enquanto o catolicismo possuía posição privilegiada na sociedade.

Em diferentes situações, divindades africanas passaram a ser associadas a santos católicos. Essa aproximação permitiu que determinadas práticas religiosas continuassem existindo em contextos de repressão.

Entretanto, o sincretismo não deve ser compreendido apenas como disfarce. Ele também resultou de séculos de convivência entre diferentes sistemas religiosos e culturais.

Com o passar do tempo, algumas comunidades passaram a valorizar movimentos de reafirmação das referências africanas, procurando reduzir associações estabelecidas historicamente com o catolicismo.



Mulheres e lideranças religiosas


As mulheres negras exerceram papel fundamental na formação das religiões afro-brasileiras. Em muitos terreiros, elas ocuparam posições de liderança religiosa e administrativa.

As mães de santo tornaram-se responsáveis pela condução de cerimônias, transmissão de conhecimentos, formação de novos integrantes e organização das comunidades religiosas. Em vários casos, também conquistaram reconhecimento social para além dos espaços religiosos.

Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, e Mãe Menininha do Gantois estão entre as lideranças mais conhecidas da história do Candomblé brasileiro. Suas trajetórias representam a importância feminina na preservação e transmissão das tradições religiosas afro-brasileiras.



Perseguição durante o período escravista


Durante a escravidão, manifestações religiosas africanas eram frequentemente vistas com desconfiança pelas autoridades. Reuniões, danças, cerimônias e festas podiam ser interpretadas como ameaças à ordem social.

Proprietários de escravizados temiam que encontros coletivos favorecessem fugas, rebeliões ou outras formas de resistência. Autoridades religiosas também procuravam converter africanos e seus descendentes ao catolicismo.

Mesmo sob repressão, práticas religiosas africanas continuaram ocorrendo em cidades, propriedades rurais, quilombos e outros espaços. Muitas cerimônias eram realizadas de maneira discreta para evitar perseguições.



Repressão durante o Império e a Primeira República


A Independência do Brasil, em 1822, não eliminou as perseguições às práticas religiosas afro-brasileiras. Durante o Império, autoridades locais continuaram utilizando regulamentos e ações policiais para controlar reuniões religiosas consideradas inadequadas.

Após a Abolição da Escravidão, em 1888, a situação também não se transformou imediatamente. Durante a Primeira República, iniciada em 1889, práticas religiosas afro-brasileiras continuaram sendo alvo de repressão.

Terreiros foram invadidos pela polícia e objetos religiosos foram apreendidos. Sacerdotes e praticantes também podiam ser acusados de curandeirismo ou outras atividades consideradas ilegais.

Muitos objetos retirados dos terreiros passaram a integrar coleções policiais ou museológicas. Atualmente, algumas dessas peças têm sido reconhecidas como documentos importantes da história da repressão religiosa no Brasil.



Racismo religioso e intolerância


A perseguição às religiões de matriz africana não pode ser compreendida apenas como conflito entre crenças diferentes. Ela possui forte relação com a história do racismo brasileiro.

Durante séculos, culturas africanas foram classificadas por setores dominantes da sociedade como inferiores, primitivas ou supersticiosas. Essas interpretações racistas também atingiram as práticas religiosas das populações negras.

A expressão racismo religioso é utilizada para destacar que determinados ataques contra Candomblé, Umbanda e outras tradições afro-brasileiras possuem relação direta com a desvalorização histórica da população negra e de suas referências culturais.

A intolerância religiosa pode atingir integrantes de várias religiões. Entretanto, quando práticas de origem africana são atacadas justamente por estarem associadas à população negra e à herança africana, existe também uma dimensão racial.



Religiões de matriz africana no século XX


Ao longo do século XX, as religiões afro-brasileiras passaram por importantes transformações. A urbanização e o crescimento das grandes cidades favoreceram a expansão de terreiros e o contato entre diferentes tradições religiosas.

O Candomblé deixou de estar concentrado principalmente em regiões específicas e passou a ter presença expressiva em cidades de várias partes do país. A Umbanda também se expandiu rapidamente, tornando-se uma das tradições religiosas brasileiras mais conhecidas.

Artistas, escritores, músicos e pesquisadores passaram a demonstrar maior interesse pelas religiões afro-brasileiras. Elementos associados aos orixás, aos terreiros e às culturas africanas apareceram cada vez mais na música, na literatura, no teatro e nas artes plásticas.

Apesar dessa crescente presença pública, preconceitos e perseguições continuaram existindo.



Reconhecimento jurídico e liberdade religiosa


A liberdade religiosa passou por diferentes fases ao longo da história brasileira. Durante o período colonial e grande parte do Império, o catolicismo possuía posição oficial privilegiada.

Com a República, estabeleceu-se formalmente a separação entre Estado e religião. Na prática, entretanto, tradições afro-brasileiras continuaram sendo alvo de ações policiais e discriminação.

A Constituição Federal de 1988 consolidou importantes garantias relacionadas à liberdade de consciência e de crença. Também assegurou proteção aos locais de culto e às práticas religiosas.

Essas garantias jurídicas representam um avanço histórico. Entretanto, a existência de leis não eliminou ataques a terreiros e manifestações de preconceito religioso.



Patrimônio cultural e preservação


Ao longo das últimas décadas, diversos terreiros passaram a ser reconhecidos como espaços de importância histórica e cultural. Alguns foram protegidos por políticas de preservação patrimonial.

Esse reconhecimento demonstra uma mudança significativa na forma como parte da sociedade brasileira passou a compreender essas tradições. Espaços que no passado eram perseguidos pelas autoridades passaram a ser considerados componentes do patrimônio cultural brasileiro.

A preservação envolve não apenas edifícios e objetos, mas também conhecimentos transmitidos oralmente, práticas musicais, culinárias, idiomas litúrgicos, festas e formas de organização comunitária.



Influências na cultura brasileira


As religiões de matriz africana deixaram marcas profundas na cultura brasileira. Sua influência aparece na música, na dança, na culinária, na literatura, nas artes, nas festas populares e no vocabulário.

Diversos ritmos musicais brasileiros foram influenciados por tradições africanas e afro-brasileiras. Instrumentos de percussão, padrões rítmicos e formas de canto presentes em cerimônias religiosas também contribuíram para outras manifestações culturais.

A culinária relacionada aos terreiros possui importância histórica semelhante. Alimentos como acarajé, caruru e diferentes preparações rituais tornaram-se conhecidos para além dos espaços religiosos.

Na literatura e na música popular, orixás e outros elementos das religiões afro-brasileiras aparecem frequentemente como referências culturais, históricas e simbólicas.



Religiões de matriz africana e identidade negra


As religiões afro-brasileiras desempenharam importante papel na preservação de memórias e referências africanas. Em uma sociedade marcada por séculos de escravidão e racismo, os terreiros constituíram espaços nos quais tradições negras puderam ser preservadas e valorizadas.

A relação com a ancestralidade ocupa posição importante em muitas dessas religiões. Por meio de rituais, narrativas e práticas comunitárias, conhecimentos sobre origens africanas foram transmitidos entre gerações.

No século XX, especialmente com o fortalecimento dos movimentos negros, diferentes lideranças passaram a relacionar a valorização das religiões afro-brasileiras à luta contra o racismo e à afirmação da identidade negra.



Principais personagens históricos


Mãe Aninha, cujo nome era Eugênia Anna dos Santos, teve papel importante na consolidação do Candomblé baiano. Fundou o Ilê Axé Opô Afonjá e tornou-se uma das grandes referências religiosas de sua época.

Mãe Menininha do Gantois, Maria Escolástica da Conceição Nazaré, foi uma das sacerdotisas mais conhecidas do Candomblé brasileiro no século XX. Sua atuação contribuiu para ampliar o reconhecimento público da religião.

Joãozinho da Goméia também teve papel relevante na expansão do Candomblé, especialmente no Rio de Janeiro. Sua trajetória demonstrou como os terreiros passaram a ocupar novos espaços urbanos durante o século XX.

Pai Agenor Miranda Rocha destacou-se como importante conhecedor das tradições do Candomblé e pela transmissão de conhecimentos religiosos.

Esses personagens representam apenas uma pequena parte das inúmeras lideranças responsáveis pela preservação das religiões afro-brasileiras.



Pesquisadores e estudos sobre as religiões afro-brasileiras


A partir do final do século XIX, estudiosos passaram a investigar de maneira mais sistemática as religiões afro-brasileiras. Entretanto, as primeiras pesquisas frequentemente estavam marcadas por concepções racistas então presentes no pensamento científico.

Nina Rodrigues foi um dos primeiros pesquisadores a estudar práticas religiosas de origem africana no Brasil. Seus trabalhos possuem importância documental, mas muitas de suas interpretações foram influenciadas pelas teorias raciais de sua época.

No século XX, pesquisadores como Edison Carneiro e Arthur Ramos ampliaram os estudos sobre culturas afro-brasileiras. Pierre Verger desenvolveu importantes pesquisas sobre as conexões históricas entre África e Brasil.

Roger Bastide analisou as religiões afro-brasileiras sob perspectivas sociológicas, enquanto Ruth Landes realizou estudos sobre comunidades religiosas e lideranças femininas.

Esses trabalhos contribuíram para ampliar o conhecimento acadêmico sobre o tema, embora devam ser analisados considerando seus respectivos contextos históricos.



Legado histórico


A história das religiões de matriz africana está profundamente ligada à própria formação da sociedade brasileira. Ela revela como populações submetidas à escravidão conseguiram preservar e reconstruir conhecimentos culturais em condições extremamente adversas.

Essas religiões também permitem compreender processos de resistência que não ocorreram apenas por meio de revoltas ou fugas. Preservar idiomas, realizar cerimônias, organizar comunidades e transmitir conhecimentos entre gerações também foram formas de resistência cultural.

Ao mesmo tempo, sua história evidencia permanências do racismo. A perseguição aos terreiros e a desvalorização das tradições africanas demonstram como preconceitos desenvolvidos durante o período escravista permaneceram presentes depois da Abolição.

Apesar dessas dificuldades, Candomblé, Umbanda e outras tradições afro-brasileiras mantiveram forte presença na vida cultural e religiosa do país.



Importância do estudo do tema



Estudar as religiões de matriz africana permite compreender aspectos fundamentais da História do Brasil. O tema relaciona escravidão, resistência, cultura, racismo, liberdade religiosa e formação da população brasileira.

Esse estudo também contribui para superar interpretações que apresentam os africanos escravizados apenas como vítimas passivas. Ao reconstruírem suas práticas religiosas, essas populações participaram ativamente da formação cultural do país.

Conhecer essas tradições ajuda ainda a combater estereótipos construídos historicamente sobre as religiões afro-brasileiras. Muitas ideias preconceituosas difundidas ao longo dos séculos resultaram justamente do desconhecimento e da desvalorização das culturas africanas.

Portanto, compreender essa história significa perceber que a formação do Brasil não pode ser explicada apenas pelas instituições políticas e econômicas. Ela também foi construída por crenças, memórias, formas de resistência e tradições transmitidas por gerações.

 

Infográfico sobre a História das religiões de Matriz Africana no Brasil
Infográfico didático com síntes sobre a História das religiões de Matriz Africana no Brasil

 

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Linha do tempo das religiões de matriz africana no Brasil:


Século XVI – Início da presença africana em larga escala no Brasil, com a chegada forçada de africanos escravizados. Junto com eles, vieram crenças, rituais, línguas, conhecimentos religiosos e formas de culto que seriam fundamentais para a formação das religiões afro-brasileiras.

 

Séculos XVII e XVIII – Expansão das práticas religiosas de origem africana em engenhos, áreas de mineração, cidades, quilombos e comunidades negras. Essas práticas foram preservadas e adaptadas apesar da repressão colonial e da imposição do catolicismo.

 

Século XVIII – Fortalecimento de irmandades católicas formadas por negros, como as dedicadas a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Esses espaços também favoreceram redes de solidariedade e preservação de elementos culturais africanos.

 

Início do século XIX – Crescimento de comunidades religiosas negras organizadas em áreas urbanas, especialmente em cidades como Salvador, Recife e Rio de Janeiro.

 

1830 – Tradições religiosas de origem africana já estavam fortemente presentes na Bahia, embora sofressem perseguições policiais e fossem frequentemente classificadas pelas autoridades como práticas proibidas ou suspeitas.

 

1835 – Revolta dos Malês, em Salvador. Embora não tenha sido um movimento ligado diretamente ao Candomblé, mostrou a forte presença de tradições religiosas africanas entre a população negra, especialmente do islamismo praticado por africanos muçulmanos.

 

Século XIX – Consolidação progressiva do Candomblé na Bahia, com organização de terreiros e fortalecimento de tradições ligadas a diferentes matrizes africanas, como Ketu, Jeje e Angola.

 

1850 – Fim legal do tráfico transatlântico de africanos escravizados para o Brasil. A partir daí, as tradições religiosas africanas já presentes no país passaram a ser transmitidas principalmente entre comunidades afro-brasileiras.

 

1888 – Abolição da Escravidão. O fim jurídico da escravidão não encerrou a discriminação contra religiões de matriz africana, que continuaram sendo perseguidas e marginalizadas.

 

1889 – Proclamação da República. O novo regime rompeu com a religião oficial do Estado, mas a liberdade religiosa não significou o fim da repressão contra terreiros e praticantes afro-brasileiros.

 

1890 – O Código Penal da República passou a criminalizar práticas como curandeirismo e espiritismo em determinadas situações. Esses dispositivos foram frequentemente usados contra líderes e praticantes de religiões afro-brasileiras.

 

Final do século XIX – Início de estudos acadêmicos sobre religiões afro-brasileiras, especialmente com Nina Rodrigues, que analisou cultos africanos na Bahia, embora suas interpretações fossem marcadas pelas teorias raciais de sua época.

 

Início do século XX – Expansão das religiões afro-brasileiras nos centros urbanos e fortalecimento de terreiros de Candomblé em diferentes regiões.

 

1908 – Data tradicionalmente associada ao surgimento da Umbanda, no Rio de Janeiro, embora sua formação tenha sido resultado de um processo mais amplo e gradual.

 

Décadas de 1910 e 1920 – Crescimento da Umbanda no Sudeste e ampliação das práticas religiosas afro-brasileiras nas cidades.

 

Década de 1930 – Intensificação dos estudos sobre culturas e religiões afro-brasileiras por pesquisadores como Arthur Ramos e Edison Carneiro.

 

1934 – Realização do Primeiro Congresso Afro-Brasileiro, em Recife, importante para o debate acadêmico e cultural sobre as populações negras e suas tradições.

 

1937 – Realização do Segundo Congresso Afro-Brasileiro, em Salvador, com participação de intelectuais e estudiosos das religiões afro-brasileiras.

 

Décadas de 1930 e 1940 – Terreiros ainda sofriam invasões policiais, apreensão de objetos religiosos e perseguição a sacerdotes e praticantes.

 

Décadas de 1940 e 1950 – Expansão do Candomblé para outras regiões do país, especialmente Rio de Janeiro e São Paulo.

 

Décadas de 1950 e 1960 – Crescimento da Umbanda nas grandes cidades brasileiras e maior presença de seus rituais e símbolos na cultura urbana.

 

Décadas de 1960 e 1970 – Ampliação do interesse de pesquisadores, artistas e intelectuais pelas religiões afro-brasileiras. O tema ganhou maior presença na música, na literatura e nas artes.

 

Década de 1970 – Fortalecimento de movimentos negros que passaram a valorizar mais diretamente as religiões de matriz africana como parte da identidade e da resistência cultural negra.

 

1988 – Promulgação da Constituição Federal. A liberdade de crença e de culto foi assegurada constitucionalmente, assim como a proteção aos locais de culto e suas liturgias.

 

Década de 1990 – Crescimento das políticas de valorização do patrimônio cultural afro-brasileiro e maior reconhecimento de terreiros como espaços históricos e culturais.

 

2000 – Criação do Estatuto da Igualdade Racial começou a ser debatida no Congresso Nacional, inserindo com maior força a discussão sobre proteção às religiões de matriz africana.

 

2003 – A Lei nº 10.639 tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas, ampliando a importância do estudo das religiões de matriz africana no contexto educacional.

 

2007 – Instituição do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro, em memória de Mãe Gilda, vítima de intolerância religiosa.

 

2010 – Entrada em vigor do Estatuto da Igualdade Racial, que passou a prever proteção específica à liberdade religiosa e aos locais de culto das religiões de matriz africana.

 

Década de 2010 – Crescimento das denúncias de intolerância e racismo religioso, especialmente contra terreiros de Candomblé e Umbanda.

 

Década de 2020 – Ampliação dos debates públicos sobre racismo religioso, preservação dos terreiros, direitos das comunidades tradicionais e valorização do patrimônio cultural afro-brasileiro.

Atualidade – As religiões de matriz africana permanecem como parte fundamental da história e da cultura brasileira. Ao mesmo tempo em que conquistaram maior reconhecimento jurídico e cultural, ainda enfrentam preconceito, intolerância e ataques motivados por racismo religioso.

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 02/09/2026




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