Religião dos Escravizados no Brasil Colonial: principais crenças

Como era, práticas religiosas, falta de liberdade, como praticavam e a umbanda.

 

 

A vida religiosa sob o cativeiro

No Brasil colonial, africanos escravizados e seus descendentes praticaram religiões de origem africana e participaram do catolicismo. Entre os indígenas submetidos ao cativeiro, também havia crenças próprias, que missionários tentavam substituir pela doutrina cristã. Senhores e autoridades religiosas exigiam a conversão, enquanto os cativos transmitiam conhecimentos e refaziam vínculos espirituais em condições de violência.

Os escravizados tinham experiências religiosas distintas. Uma pessoa nascida em Angola podia conhecer ritos ancestrais e práticas cristãs antes de chegar à América. Outra, capturada na África ocidental, podia cultuar divindades desconhecidas por seus companheiros de engenho. Seus filhos, nascidos na colônia, aprendiam com familiares e com pessoas de outras procedências.



Origens africanas e diversidade de crenças

Entre os africanos desembarcados nos portos coloniais, muitos provinham da África centro-ocidental, sobretudo de áreas ligadas ao Congo e a Angola. Banto é uma designação linguística ampla; os povos que falavam essas línguas possuíam costumes próprios. Em várias dessas sociedades, especialistas religiosos consultavam espíritos e tratavam infortúnios atribuídos ao rompimento das relações entre vivos e ancestrais.

O tráfico também trouxe pessoas da região do golfo do Benim. Nos registros coloniais, designações como jeje e nagô agrupavam africanos que cultuavam voduns ou orixás, conforme suas comunidades de origem. Comerciantes e funcionários usavam nomes de procedência que nem sempre correspondiam à identidade que os próprios cativos reconheciam.

Ao conviverem nas fazendas e nas cidades, os africanos precisavam encontrar interlocutores e adaptar seus ritos. Pessoas que falavam línguas próximas podiam compartilhar conhecimentos, mas também disputavam prestígio religioso. Os pesquisadores reconstituem essas diferenças por meio de relatos e de documentos produzidos sob a administração colonial.



Catequese, batismo e autoridade dos senhores

A Coroa portuguesa mantinha vínculos com a Igreja pelo regime do padroado, que atribuía ao monarca funções na organização e no financiamento da vida eclesiástica. Missionários ensinavam a doutrina católica, e os párocos registravam os batismos dos escravizados. Alguns africanos recebiam o sacramento antes do embarque; outros eram batizados depois de chegar à colônia.

O batismo inseria o cativo na comunidade cristã sem lhe conceder liberdade. Padres e proprietários aceitavam a escravidão africana, e instituições religiosas possuíam pessoas escravizadas. Os senhores deveriam permitir a instrução religiosa e a participação nos sacramentos, mas o trabalho e a distância das igrejas dificultavam essas práticas.

Os registros paroquiais documentam a administração dos sacramentos, com informações sobre proprietários e padrinhos. Para conhecer as convicções de quem foi batizado, os historiadores precisam comparar esses registros com outros testemunhos. Um nome cristão no livro da paróquia, por si só, oferece poucos dados sobre as crenças da pessoa.



Devoções católicas e relações de compadrio

Escravizados rezavam diante de imagens e participavam de festas de santos. Entre as devoções cultivadas pela população negra estavam Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Os fiéis podiam atribuir aos santos proteção contra doenças ou auxílio em situações de sofrimento, incorporando essas devoções à vida familiar.

No batismo, padrinhos e madrinhas assumiam um parentesco espiritual com o afilhado. Os cativos estabeleciam essas relações com outros escravizados ou com pessoas livres, conforme as possibilidades locais. Em paróquias rurais da Bahia, os registros do século XVII mostram alianças que atravessavam os limites de uma propriedade. Os proprietários continuavam a decidir sobre o trabalho e a venda dos seus cativos.



Irmandades negras e organização coletiva

As irmandades eram associações religiosas leigas, organizadas por estatutos chamados compromissos. Nas confrarias negras, escravizados e libertos reuniam recursos e ocupavam cargos, conforme as regras de admissão de cada associação. Muitas adotavam Nossa Senhora do Rosário como padroeira.

Os irmãos financiavam celebrações e cuidavam do sepultamento dos associados. A participação exigia contribuições, e nem todos os cativos tinham dinheiro ou autorização para frequentar os encontros. Bispos e autoridades civis fiscalizavam essas organizações; dentro delas, os membros negociavam cargos e defendiam interesses comuns.

Em algumas irmandades, os participantes elegiam reis e rainhas negros para as festas. Os títulos remetiam a referências políticas africanas, recriadas na colônia. As divisões entre africanos de determinada procedência e negros nascidos no Brasil também apareciam na escolha de dirigentes e na composição das confrarias.



Calundus e práticas de cura

Nos séculos XVII e XVIII, moradores da América portuguesa chamavam de calundus certas cerimônias religiosas e terapêuticas de matriz africana. Em muitas delas, especialistas consultavam espíritos para identificar as causas de uma doença. Os participantes realizavam os encontros em casas ou em espaços de fazendas, com variações entre os grupos.

Os documentos descrevem práticas recorrentes, sem que todas estivessem presentes em cada cerimônia:

• Os participantes cantavam e tocavam instrumentos de percussão durante os ritos.

• Especialistas entravam em transe e atribuíam suas palavras ou gestos à atuação de espíritos.

• Pessoas doentes recebiam tratamentos que podiam envolver plantas e procedimentos rituais.

• Clientes consultavam os praticantes para localizar objetos perdidos ou explicar infortúnios.

Escravizados e pessoas livres recorriam a esses especialistas. A clientela podia incluir brancos, que procuravam atendimento apesar das condenações religiosas. Quem conduzia os ritos conquistava reconhecimento entre os frequentadores, embora permanecesse sujeito à denúncia.



Luzia Pinta e a perseguição inquisitorial

Luzia Pinta nasceu em Angola, foi escravizada e viveu em Sabará, na região mineradora. Depois de obter a alforria, conduziu calundus e atendeu pessoas que procuravam cura. Testemunhas descreveram suas cerimônias, nas quais ela dançava e consultava espíritos.

Denunciada ao Santo Ofício no século XVIII, Luzia foi levada a Lisboa e interrogada. Os inquisidores interpretavam práticas africanas segundo acusações de feitiçaria ou de pacto demoníaco. No Brasil, agentes e denunciantes recolhiam informações para o tribunal português, que podia ordenar a prisão e o envio dos acusados à metrópole.

Os historiadores leem esses processos considerando as condições dos interrogatórios. Escrivães registravam as respostas com o vocabulário do tribunal, e os acusados falavam sob ameaça de punição. Termos como feitiçaria exprimiam o julgamento dos perseguidores e podiam reunir práticas que seus adeptos distinguiam.



Bolsas de mandinga e proteção pessoal

As bolsas de mandinga eram pequenos amuletos usados junto ao corpo. Seus fabricantes colocavam dentro delas materiais aos quais atribuíam poder de proteção, como escritos religiosos ou fragmentos de objetos sagrados. O conteúdo variava conforme o produtor e a finalidade do amuleto.

Escravizados podiam usar essas bolsas contra ferimentos e perigos cotidianos. Os objetos circulavam também entre pessoas livres, alcançando compradores fora das comunidades africanas. Em alguns exemplares, os fabricantes reuniam referências africanas e orações cristãs; autoridades inquisitoriais apreendiam bolsas e investigavam quem as fazia.



Encontros entre tradições religiosas

Os estudiosos usam o termo sincretismo para tratar das relações entre tradições religiosas. Na colônia, africanos podiam adotar devoções católicas e continuar a consultar especialistas de origem africana. As escolhas dependiam da trajetória de cada pessoa e das condições em que ela vivia.

Alguns encontros já haviam ocorrido em território africano, antes da travessia atlântica. Outros aconteceram nas casas e nas confrarias coloniais. Um fiel podia reconhecer poderes em um santo católico segundo conhecimentos aprendidos com sua família, sem seguir a interpretação ensinada pelo padre.

As associações entre santos e divindades africanas variaram entre épocas e comunidades. Para descrevê-las no período colonial, os pesquisadores precisam de registros do lugar estudado. As correspondências conhecidas em terreiros atuais pertencem a trajetórias religiosas que continuaram depois da colonização.



Indígenas escravizados e repressão aos ritos

Colonos também escravizaram indígenas, sobretudo em frentes de conquista e em regiões onde disputavam o acesso à mão de obra nativa. Entre os povos atingidos, especialistas religiosos conduziam ritos e tratavam doenças segundo conhecimentos próprios. Missionários combatiam essas autoridades e ensinavam orações cristãs.

As condições de vida de indígenas escravizados diferiam das de moradores de aldeamentos missionários. Nos aldeamentos, religiosos dirigiam a catequese e organizavam o trabalho, sob regras que mudaram durante a colonização. Historiadores distinguem essas formas de sujeição ao examinar o contato entre práticas indígenas e o catolicismo.



Transmissão religiosa e mudanças após a colônia

Homens e mulheres ensinavam orações e conhecimentos rituais aos mais jovens. Vendas e deslocamentos podiam separar aprendizes de seus familiares, enquanto novos encontros permitiam aprender com outros praticantes. Os escravizados reuniam-se nos espaços e horários que conseguiam negociar com os senhores.

As tradições africanas praticadas durante a colonização fazem parte da história do candomblé. A organização de casas de culto conhecidas por esse nome ganhou formas mais documentadas ao longo do século XIX, sobretudo na Bahia. Seus dirigentes elaboraram comunidades rituais com regras de iniciação e hierarquias próprias.

Os africanos muçulmanos também integraram a história religiosa da escravidão. A documentação mais conhecida sobre sua atuação no Brasil concentra-se no período imperial. A Revolta dos Malês ocorreu em Salvador, em 1835, depois da Independência, e deve ser estudada nesse recorte.



Você Sabia?

• Em 1491, o rei do Congo, Nzinga a Nkuwu, recebeu o batismo e adotou o nome de João. Parte dos africanos escravizados que chegaram ao Brasil vinha de uma região onde governantes e súditos já haviam participado de experiências católicas.


• Um registro de batismo da Bahia, de 1659, identifica Bento, escravizado do capitão Pedro Aranha, como afilhado de dois cativos pertencentes ao capitão Francisco Fernandes Dosim. O documento permite acompanhar uma relação de parentesco espiritual entre pessoas registradas sob proprietários distintos.

 

 

_______________________
 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 09/10/2026

 

- VICENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História do Brasil. São Paulo, Scipione, 1998.

 

- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.

Veja também