Conjuração de Nosso Pai: o que foi, causas, contexto e consequências

A Conjuração de Nosso Pai foi uma revolta que ocorreu em Olinda em 1666.

 

O que foi

A Conjuração de Nosso Pai, também conhecida como Revolta contra Jerônimo de Mendonça Furtado, foi um movimento de contestação política ocorrido em 31 de agosto de 1666, na cidade de Olinda, em Pernambuco, durante o período colonial brasileiro. A revolta foi organizada principalmente por senhores de engenho, membros da Câmara Municipal, religiosos e representantes das elites locais, insatisfeitos com a administração do governador nomeado pela Coroa portuguesa.

O principal objetivo dos revoltosos era destituir Jerônimo de Mendonça Furtado, acusado de exercer o governo de maneira autoritária e de desrespeitar os interesses dos grandes proprietários rurais. O movimento terminou com a prisão e o afastamento do governador, que foi enviado de volta a Portugal.

A Conjuração de Nosso Pai destacou-se por representar um conflito entre as elites coloniais de Pernambuco e a autoridade da monarquia portuguesa, revelando as tensões existentes na administração colonial após a expulsão dos holandeses, em 1654.

Contexto histórico

A Conjuração de Nosso Pai ocorreu em um período de reorganização política e econômica de Pernambuco após a Insurreição Pernambucana (1645–1654), movimento que resultou na expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro. Durante os conflitos, os senhores de engenho e outros grupos locais tiveram participação importante na resistência à ocupação neerlandesa.

Após a vitória contra os holandeses, parte das elites pernambucanas passou a reivindicar maior reconhecimento político da Coroa portuguesa. Os grandes proprietários rurais consideravam que sua participação na restauração do domínio português justificava a concessão de privilégios e maior influência na escolha dos governadores da capitania.

Entretanto, a monarquia portuguesa procurava preservar sua autoridade sobre a administração colonial. Durante o reinado de Dom Afonso VI (1656–1683), Jerônimo de Mendonça Furtado foi nomeado governador de Pernambuco, assumindo o cargo em 1664. Sua administração enfrentou crescente oposição dos grupos locais, especialmente dos senhores de engenho de Olinda.

A situação econômica da capitania também contribuía para o descontentamento. A produção açucareira enfrentava dificuldades relacionadas às consequências da ocupação holandesa, ao endividamento dos proprietários e à concorrência do açúcar produzido nas Antilhas. Nesse contexto, as medidas administrativas do governador provocaram conflitos com setores economicamente influentes da sociedade pernambucana.

Antecedentes e principais causas

Após a expulsão dos holandeses, em 1654, os grandes proprietários de Pernambuco passaram a defender uma participação mais expressiva nas decisões políticas da capitania. Muitos consideravam que os principais cargos administrativos deveriam ser ocupados por pessoas ligadas à restauração do domínio português.

A nomeação de Jerônimo de Mendonça Furtado, que não havia participado diretamente das campanhas de expulsão dos holandeses, contrariou essas expectativas. O governador, conhecido pelo apelido de Xumbergas, também enfrentou críticas relacionadas à sua forma de administrar a capitania.

Entre as principais causas da Conjuração de Nosso Pai, destacaram-se:

  • Insatisfação com a nomeação do governador: os senhores de engenho desejavam que a administração de Pernambuco fosse entregue a pessoas ligadas às elites locais e à Insurreição Pernambucana.

  • Disputas pelo poder político: os grupos economicamente influentes procuravam ampliar sua participação nas decisões administrativas da capitania.

  • Acusações de autoritarismo: Jerônimo de Mendonça Furtado era acusado por seus adversários de interferir indevidamente em questões judiciais e de utilizar seus poderes de maneira arbitrária.

  • Conflitos econômicos: as medidas do governador relacionadas à cobrança de dívidas e à administração de propriedades provocaram insatisfação entre determinados senhores de engenho.

  • Descontentamento com a Coroa portuguesa: parte das elites pernambucanas considerava que seus serviços durante a expulsão dos holandeses não haviam recebido o reconhecimento esperado.

  • Suspeitas envolvendo os franceses: a presença de uma esquadra francesa no porto do Recife, em 1666, contribuiu para a divulgação de acusações de que o governador mantinha relações suspeitas com os estrangeiros.

Como ocorreu a Conjuração de Nosso Pai?

A Conjuração de Nosso Pai foi organizada por integrantes das elites de Olinda que pretendiam afastar Jerônimo de Mendonça Furtado do governo de Pernambuco. Entre os participantes estavam senhores de engenho, vereadores, religiosos e o juiz ordinário André de Barros Rego.

Os conspiradores organizaram uma estratégia para prender o governador durante uma cerimônia religiosa conhecida como Nosso Pai. Esse ritual católico consistia em conduzir o Santíssimo Sacramento até a residência de uma pessoa enferma, permitindo que ela recebesse a comunhão.

Como o governador costumava acompanhar essas cerimônias, os organizadores utilizaram a procissão como oportunidade para realizar a prisão. Em 31 de agosto de 1666, Jerônimo de Mendonça Furtado acompanhava o cortejo religioso pelas ruas de Olinda quando foi surpreendido pelos conspiradores.

Na Rua de São Bento, o governador recebeu voz de prisão do juiz ordinário, com o apoio de oficiais da Câmara e de outros participantes do movimento. Sem condições de organizar resistência, foi detido e conduzido à Fortaleza do Brum, localizada no Recife.

Posteriormente, Mendonça Furtado foi enviado para Portugal, encerrando sua administração na capitania. A deposição ocorreu sem a necessidade de uma campanha militar prolongada, demonstrando a capacidade de articulação política dos grupos envolvidos.

Consequências da Conjuração de Nosso Pai:

  • Deposição do governador: Jerônimo de Mendonça Furtado foi preso e afastado do governo de Pernambuco, sendo posteriormente enviado para Portugal.

  • Nomeação de um novo governador: André Vidal de Negreiros, um dos principais participantes da Insurreição Pernambucana, foi escolhido para administrar a capitania, atendendo às expectativas de parte das elites locais.

  • Fortalecimento político temporário dos senhores de engenho: a deposição demonstrou a influência dos grandes proprietários rurais sobre as decisões administrativas da capitania.

  • Manutenção do domínio português: apesar da destituição do governador, os revoltosos não defendiam a independência de Pernambuco, mas uma administração mais favorável aos interesses locais.

  • Evidência dos conflitos coloniais: o movimento demonstrou que a relação entre a Coroa portuguesa e as elites coloniais era marcada por negociações, rivalidades e disputas de autoridade.

  • Continuidade das tensões regionais: os conflitos entre os interesses locais e as autoridades portuguesas permaneceram presentes em Pernambuco nas décadas seguintes.


A relação entre a Conjuração de Nosso Pai e o poder dos senhores de engenho

A Conjuração de Nosso Pai demonstra a influência política e econômica dos senhores de engenho na sociedade colonial pernambucana. Durante o século XVII, esses grandes proprietários controlavam extensas áreas de terras, concentravam a produção açucareira e exerciam importante influência sobre as instituições municipais, especialmente as Câmaras.

A participação dos senhores de engenho na expulsão dos holandeses, em 1654, contribuiu para fortalecer sua posição política. Muitos desses proprietários passaram a considerar que os serviços prestados à monarquia portuguesa lhes garantiam o direito de participar mais diretamente das decisões administrativas da capitania.

A oposição ao governador Jerônimo de Mendonça Furtado estava relacionada a essa disputa de poder. Os proprietários não pretendiam romper com Portugal, mas limitar a atuação de uma autoridade que consideravam contrária aos seus interesses econômicos e políticos.

O movimento também revela uma característica importante da sociedade colonial brasileira. Embora a Coroa portuguesa detivesse a autoridade sobre as capitanias, a administração dependia frequentemente da colaboração das elites locais. Quando os interesses desses grupos entravam em conflito com as decisões da monarquia, podiam ocorrer movimentos de resistência e contestação.

Dessa forma, a Conjuração de Nosso Pai evidencia que o poder colonial não era exercido exclusivamente pelas autoridades enviadas de Portugal. Os grandes proprietários rurais também desempenhavam papel importante na organização política e na manutenção das estruturas econômicas da colônia.

Conclusão

A Conjuração de Nosso Pai representou um episódio significativo das disputas políticas que marcaram Pernambuco após a expulsão dos holandeses. O movimento revelou que a restauração do domínio português não eliminou os conflitos entre as autoridades metropolitanas e os grupos locais que haviam participado da luta contra a ocupação neerlandesa. Pelo contrário, a vitória de 1654 fortaleceu entre os grandes proprietários o sentimento de que deveriam exercer maior influência sobre a administração da capitania.

A deposição de Jerônimo de Mendonça Furtado demonstrou a capacidade de mobilização das elites pernambucanas, mas também evidenciou os limites de suas reivindicações. Os revoltosos não procuravam acabar com o domínio português nem modificar profundamente a estrutura social baseada na grande propriedade e na escravidão. Seu objetivo principal era garantir que a administração colonial atendesse aos interesses dos grupos economicamente dominantes.

Sob uma perspectiva histórica, a Conjuração de Nosso Pai permite compreender as relações de negociação e conflito entre a Coroa portuguesa e as elites coloniais. Sua importância está menos na oposição ao colonialismo e mais na demonstração de que a autoridade metropolitana precisava conviver com poderes locais capazes de contestar e até destituir seus representantes.

 

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RESUMO

 

Conjuração de Nosso Pai (1666)

O que foi

  • Revolta ocorrida em 31 de agosto de 1666, na cidade de Olinda, em Pernambuco, durante o Brasil Colonial.

  • Movimento organizado por senhores de engenho, vereadores, religiosos e integrantes das elites locais.

  • Teve como principal objetivo destituir o governador Jerônimo de Mendonça Furtado.

  • Representou uma disputa pelo poder político entre as elites pernambucanas e a administração colonial portuguesa.

Contexto histórico

  • Insurreição Pernambucana: a expulsão dos holandeses, em 1654, fortaleceu politicamente os senhores de engenho que participaram da resistência.

  • Domínio português: Pernambuco continuava subordinado à Coroa portuguesa, governada por Dom Afonso VI.

  • Disputas políticas: as elites locais desejavam maior influência na escolha dos governadores da capitania.

  • Crise econômica: a produção açucareira enfrentava dificuldades financeiras e a concorrência do açúcar das Antilhas.

  • Nomeação do governador: Jerônimo de Mendonça Furtado assumiu o governo de Pernambuco em 1664, contrariando os interesses de parte dos proprietários rurais.

Principais causas:

  • Insatisfação política: oposição à nomeação de um governador que não havia participado da expulsão dos holandeses.

  • Autoritarismo: acusações de abuso de poder e interferência em questões administrativas e judiciais.

  • Interesses econômicos: descontentamento de senhores de engenho com medidas administrativas e cobranças de dívidas.

  • Disputas pelo poder: tentativa das elites locais de ampliar sua influência sobre a administração colonial.

  • Falta de reconhecimento: os proprietários consideravam que seus serviços durante a Insurreição Pernambucana não haviam sido devidamente recompensados pela Coroa.

Principais participantes:

  • Senhores de engenho: grandes proprietários rurais que desejavam ampliar sua participação nas decisões políticas.

  • Vereadores de Olinda: representantes da administração municipal envolvidos na organização do movimento.

  • Religiosos: participaram da articulação da conspiração e da procissão utilizada para prender o governador.

  • André de Barros Rego: juiz ordinário de Olinda que participou da prisão de Jerônimo de Mendonça Furtado.

  • Jerônimo de Mendonça Furtado: governador de Pernambuco e principal alvo da revolta.

Como ocorreu a Conjuração de Nosso Pai

  • Organização da conspiração: integrantes das elites de Olinda planejaram afastar o governador.

  • Procissão religiosa: os conspiradores utilizaram uma cerimônia de condução do Santíssimo Sacramento, conhecida como Nosso Pai, para surpreender a autoridade colonial.

  • 31 de agosto de 1666: Jerônimo de Mendonça Furtado foi preso durante a procissão, em Olinda.

  • Prisão do governador: após ser detido, foi conduzido à Fortaleza do Brum, no Recife.

  • Destituição: o governador foi afastado do cargo e posteriormente enviado para Portugal.

  • Fim do movimento: a deposição ocorreu sem uma campanha militar prolongada.

Principais consequências:

  • Deposição do governador: Jerônimo de Mendonça Furtado perdeu o cargo e foi enviado para Portugal.

  • Novo governo: André Vidal de Negreiros, participante da Insurreição Pernambucana, foi escolhido para administrar Pernambuco.

  • Fortalecimento das elites locais: os senhores de engenho demonstraram sua capacidade de influenciar as decisões políticas.

  • Manutenção do domínio português: os revoltosos não defendiam a independência, mas maior influência sobre a administração colonial.

  • Conflitos políticos: o movimento evidenciou as tensões entre os interesses locais e a autoridade da Coroa portuguesa.

Importância histórica:

  • Demonstrou a influência política e econômica dos senhores de engenho em Pernambuco.

  • Revelou os conflitos entre as elites coloniais e os governadores nomeados pela Coroa portuguesa.

  • Evidenciou a importância das Câmaras Municipais na organização política do Brasil Colonial.

  • Mostrou que os grandes proprietários procuravam preservar seus privilégios e ampliar sua participação no governo.

  • Representou um exemplo de contestação à autoridade colonial sem reivindicar a independência de Portugal.

  • Demonstrou que a administração colonial dependia de negociações entre a monarquia portuguesa e os grupos economicamente dominantes nas capitanias.

 

 

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Artigo publicado em 05/10/2018 e atualizado em 08/10/2026


Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).


Fontes de pesquisa utilizadas na elaboração do artigo:

 

Bibliografia indicada sobre o tema:

 

FIGUEIREDO, Luciano R. A. As rebeliões no Brasil Colônia. São Paulo: Zahar, 2007.

Veja também