O que foi a Rusga Cuiabana?

A Rusga Cuiabana foi uma revolta política e social ocorrida em 1834, em Cuiabá, Mato Grosso, durante o Período Regencial, marcada pelo conflito entre grupos políticos locais e pelo massacre de portugueses e seus aliados.

 

O que foi a Rusga Cuiabana?

A Rusga Cuiabana foi uma revolta que começou em Cuiabá, na noite de 30 de maio de 1834, durante o Período Regencial. Seus participantes atacaram moradores de origem portuguesa e disputaram o controle do governo da província de Mato Grosso. Os ataques incluíram assassinatos e saques a estabelecimentos comerciais.

Historiadores também chamam o episódio de Rebelião Cuiabana ou Sedição de 30 de Maio. Soldados e moradores participaram das ações de rua, enquanto dirigentes ligados à Sociedade dos Zelosos da Independência articulavam a mudança do comando provincial.



O Brasil durante as Regências

Dom Pedro I abdicou em 7 de abril de 1831. Como seu filho tinha cinco anos, regentes assumiram o governo do Império até que o herdeiro pudesse ocupar o trono. Políticos passaram a disputar a distribuição da autoridade entre o governo central e as províncias.

Nas cidades, homens que desejavam intervir nas decisões públicas organizaram associações e divulgaram suas posições pela imprensa. A defesa da Constituição convivia com divergências sobre quem deveria governar. Em Mato Grosso, integrantes das elites locais enfrentaram adversários que ocupavam cargos na administração provincial.

As expressões liberal e conservador precisam ser lidas de acordo com aquelas disputas. Seus integrantes faziam alianças conforme os interesses locais, e uma mesma associação podia abrigar posições distintas sobre a monarquia e a autonomia provincial.



As associações e a disputa pelo governo

A Sociedade dos Zelosos da Independência, organizada em 1833, reuniu liberais moderados e exaltados. Antônio Luís Patrício da Silva Manso, médico e botânico, participou de sua formação. Seus membros defendiam a independência brasileira e combatiam a influência portuguesa nos cargos públicos.

Os moderados pressionavam pelo afastamento dos adversários nas instituições existentes. Entre os exaltados, havia quem recusasse presidentes provinciais e comandantes militares escolhidos pela Regência. A reunião dessas posições permitiu aos Zelosos agir na Câmara de Cuiabá e nos conselhos da província.

Do outro lado, a Sociedade Filantrópica congregava integrantes da elite que já exercia o poder. Seus associados, chamados de caramurus pelos adversários, incluíam portugueses e brasileiros. Comerciantes vinculados a esse grupo tinham interesses a defender na administração e nos negócios locais.



A hostilidade contra os portugueses

Os opositores dirigiam suas acusações aos portugueses residentes na província, inclusive aos que possuíam cidadania brasileira e eram chamados de brasileiros adotivos. A permanência desses homens no comércio e nos cargos públicos alimentava a campanha de seus rivais.

Pregadores e autores de pasquins, escritos de ataque político, difundiam mensagens contra os reinóis, nome dado aos nascidos em Portugal. Frei José dos Santos Inocentes participou dessa pregação e empregou a expressão depreciativa “bicudos”. Boatos sobre ameaças à independência circulavam junto das denúncias contra os adversários.

Ao atribuir aos portugueses os problemas da província, os agitadores transformavam a origem dos moradores em motivo de perseguição. A defesa da independência servia, assim, à campanha para excluir pessoas dos espaços de poder e expulsá-las de Mato Grosso.



Os interesses dos revoltosos

Os participantes se aproximaram em torno de reivindicações que misturavam a disputa por cargos com a hostilidade aos adversários:

• Dirigentes dos Zelosos queriam ampliar sua autoridade sobre o governo provincial.

• Militantes defendiam o afastamento dos portugueses dos cargos públicos e sua saída da província.

• Integrantes da ala exaltada reivindicavam que homens ligados à região comandassem a administração e as forças militares.



Os ataques em Cuiabá

Os revoltosos se reuniram no Campo d’Ourique. Ao som de cornetas e tambores, grupos armados percorreram as ruas e atacaram casas de portugueses. Arrombaram portas, roubaram mercadorias e mataram moradores. Soldados participaram da tomada do Quartel dos Guardas Municipais.

As vítimas incluíram portugueses e alguns brasileiros identificados com os adversários dos insurgentes. Pesquisadores registram dezenas de mortos. A documentação disponível exige cautela ao estabelecer um total fechado para os assassinatos.

Depois dos ataques, perseguidores procuraram fugitivos em outras localidades, entre elas Diamantino e Poconé. A violência alcançou áreas além da cidade onde começara a revolta.



João Poupino Caldas e a mudança de alianças

João Poupino Caldas exercia o governo interino quando os ataques começaram. Embora tivesse participado dos Zelosos e da campanha contra os portugueses, passou a cobrar investigações sobre os crimes. Ordenou aos juízes de paz que identificassem suspeitos e apurassem a circulação de bens saqueados.

Ao colaborar com a repressão, afastou-se de antigos companheiros. Antônio Pedro de Alencastro, enviado pela Regência, assumiu a presidência provincial em setembro e contou com seu apoio para enfrentar os envolvidos na revolta.



Prisões e investigações

Alencastro promoveu prisões e cobrou dos magistrados a apuração dos acontecimentos. Cinco acusados de dirigir a sedição foram enviados ao Rio de Janeiro para julgamento. Entre eles estavam o juiz Pascoal Domingues de Miranda e o vereador Bento Franco de Camargo.

As autoridades enfrentaram disputas sobre a condução dos processos, pois alguns investigadores mantinham vínculos com os grupos envolvidos. Trocas de magistrados e acusações de parcialidade acompanharam os inquéritos. Os presos com influência política tiveram condições de defesa distintas das dos participantes pobres, cujas trajetórias posteriores permanecem menos documentadas.



Documentos e memória da revolta

Historiadores estudam a Rusga por meio de correspondências oficiais e depoimentos judiciais. Ao confrontar esses registros, precisam considerar a posição de quem escreveu: acusados podiam reduzir sua participação, enquanto autoridades justificavam as medidas tomadas contra os insurgentes. Uma acusação registrada no processo exige comparação com outras provas.

Parte dos documentos se perdeu. O português Joaquim Ferreira Moutinho declarou, em obra publicada em 1869, que queimara papéis relativos aos acontecimentos. Pesquisadores também encontram mais informações sobre dirigentes conhecidos do que sobre os homens que participaram dos ataques nas ruas.

 

Conclusão

 

A Rusga Cuiabana expôs as tensões políticas e sociais do Período Regencial (1831-1840). Seus participantes defendiam mudanças na distribuição do poder e a redução da influência portuguesa, mas a disputa entre grupos das elites locais também alimentou a violência popular. O massacre de portugueses e de seus aliados mostrou que o sentimento antilusitano, estimulado por rivalidades econômicas e políticas, passou dos limites da contestação institucional. A revolta revelou uma sociedade que buscava maior autonomia política e ainda resolvia seus conflitos pela força.

Nas primeiras décadas após a Independência, a Rusga Cuiabana mostrou a fragilidade das instituições brasileiras. A instabilidade política, a competição pelo controle da administração provincial e a participação de diferentes setores sociais indicam que a construção do Estado nacional se fez entre conflitos regionais e interesses divergentes. O episódio integra o conjunto das revoltas regenciais, em que as reivindicações por mudanças conviviam com práticas autoritárias e disputas pelo poder. A unidade territorial e política do Brasil se consolidou por meio de confrontos, exclusões e episódios de violência, e esses episódios deixaram marcas na história regional.



Você Sabia?

• Em agosto do ano da revolta, Poupino Caldas suspendeu a parada militar de 7 de Setembro. Temia reunir tropas enquanto persistiam as tensões provocadas pelos ataques.

• O jornal A Matutina Meiapontense, publicado em Goiás, divulgou os estatutos dos Zelosos. As notícias políticas de Mato Grosso circulavam também fora das fronteiras provinciais.

 

 

Infográfico com resumo sobre a Rusga Cuiabana
Infográfico com síntese sobre a Rusga Cuiabana

 

________________________________

 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 09/10/2026

Veja também