Governo Venceslau Brás: características, realizações e legado
O governo de Venceslau Brás (1914-1918) foi marcado pela estabilidade política, pela participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial e pela consolidação do poder das oligarquias durante a Primeira República.
Quem foi Venceslau Brás (biografia e carreira política)
Venceslau Brás Pereira Gomes nasceu em 26 de fevereiro de 1868, em Itajubá, Minas Gerais. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo e iniciou sua trajetória política no cenário mineiro, filiando-se ao Partido Republicano Mineiro (PRM), uma das principais forças políticas da Primeira República. Ocupou cargos como o de promotor público, vereador, deputado estadual e, posteriormente, deputado federal.
Tornou-se presidente de Minas Gerais (cargo equivalente ao de governador) entre 1909 e 1910, destacando-se por uma administração pautada na estabilidade e no fortalecimento das alianças políticas entre as oligarquias estaduais. Em 1910, foi eleito vice-presidente da República na chapa de Hermes da Fonseca, assumindo um papel de destaque na política nacional.
Sua trajetória foi marcada pelo pragmatismo e pela conciliação, características que o acompanharam ao longo de toda sua carreira pública.
Eleição para presidente e posse
A eleição de Venceslau Brás ocorreu em 1914, dentro do contexto do sistema político conhecido como “política do café com leite”, que alternava o poder entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais. Brás, representante mineiro, venceu o candidato Ruy Barbosa, apoiado por setores oposicionistas.
Tomou posse em 15 de novembro de 1914, em um momento de grandes desafios: o início da Primeira Guerra Mundial na Europa e a instabilidade econômica interna que ameaçava as exportações brasileiras.
Principais características de seu governo:
• Política de conciliação entre as oligarquias estaduais, garantindo o apoio das elites regionais.
• Manutenção do modelo econômico agroexportador, com destaque para o café como principal produto de exportação.
• Centralização das decisões políticas e apoio ao poder das oligarquias rurais.
• Criação de medidas para estabilizar a economia durante a Primeira Guerra Mundial, especialmente no controle da exportação e importação de produtos.
• Incentivo à industrialização leve, motivada pela escassez de produtos importados durante o conflito mundial.
• Reforço das políticas de segurança e repressão a movimentos populares e grevistas, especialmente os de inspiração anarquista.
• Defesa da ordem e da moralidade pública como valores centrais de sua administração.
Principais realizações de seu governo:
• Participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial em 1917, ao lado dos Aliados, após o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães.
• Criação do Serviço Militar Obrigatório, medida que buscava fortalecer o Exército e a defesa nacional.
• Repressão e controle dos movimentos operários, marcados por greves em São Paulo e no Rio de Janeiro entre 1917 e 1918.
• Estabelecimento de políticas de incentivo à indústria nacional durante o conflito europeu, diante da escassez de produtos importados.
• Implementação de medidas sanitárias e de combate à gripe espanhola, epidemia que atingiu duramente o Brasil no final de seu mandato.
• Fortalecimento das relações diplomáticas com os Estados Unidos, buscando apoio econômico e político em um contexto internacional de guerra.
Dificuldades e problemas enfrentados
Venceslau Brás enfrentou sérias dificuldades econômicas durante seu governo, entre 1914 e 1918, sobretudo em razão dos efeitos da Primeira Guerra Mundial. A desorganização do comércio internacional reduziu as exportações brasileiras, atingindo especialmente o café, principal produto da economia nacional. O governo precisou adotar medidas para sustentar os preços do produto e controlar os estoques, enquanto a redução das importações, a inflação e a elevação do custo dos alimentos agravavam a carestia nas cidades. O aumento do custo de vida, combinado aos baixos salários e às precárias condições de trabalho, ampliou a insatisfação entre os trabalhadores urbanos. Esse cenário contribuiu para uma intensa mobilização operária, destacando-se a Greve Geral de 1917, em São Paulo, que posteriormente repercutiu em outras cidades brasileiras.
No campo político e social, Venceslau Brás também precisou lidar com a fase final da Guerra do Contestado, conflito iniciado em 1912 e encerrado militarmente em 1916 após forte repressão das forças governamentais. A entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, em outubro de 1917, depois do ataque de submarinos alemães a navios brasileiros, criou novas preocupações militares, diplomáticas e econômicas. No último ano do mandato, outra grave crise atingiu o país: a epidemia de gripe espanhola de 1918, que provocou elevado número de mortes e pressionou os serviços públicos de saúde.
Como terminou seu governo
O governo de Venceslau Brás terminou em 1918, em meio a um cenário de crise econômica e social. A inflação elevada, o aumento do custo de vida e as dificuldades geradas pela guerra provocaram descontentamento popular. O país também enfrentou a devastadora epidemia de gripe espanhola, que causou milhares de mortes e paralisou a vida nacional.
Apesar das dificuldades, Brás conseguiu manter a estabilidade política e conduzir a transição para o governo seguinte, de Delfim Moreira, seu conterrâneo e também representante das oligarquias mineiras. Ao deixar a presidência, retirou-se gradualmente da vida pública, mantendo a imagem de um político conciliador e discreto.
Legado do seu governo
O legado de Venceslau Brás está associado à manutenção da estabilidade política durante um período conturbado da história mundial.
Seu governo consolidou a hegemonia das oligarquias estaduais, manteve o pacto político da “política do café com leite” e enfrentou com prudência as dificuldades geradas pela Primeira Guerra Mundial. Apesar da ausência de grandes reformas estruturais, sua administração marcou o início de uma incipiente industrialização no Brasil e reforçou o papel do Estado na defesa nacional.
Também ficou lembrado por sua postura de moderação e pela busca constante de consenso político, características que garantiram relativa tranquilidade institucional até o final da Primeira República.
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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 05/10/2025 e atualizado em 07/10/2026
Fontes de referência do artigo:
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2ª edição. São Paulo: Edusp, 1995.
Venceslau Brás - website da FGV