Movimento Integralista Brasileiro
O Movimento Integralista Brasileiro foi um movimento político nacionalista, autoritário, anticomunista e antiliberal, liderado por Plínio Salgado na década de 1930.
Explicação sobre o movimento integralista brasileiro
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O que foi
O Movimento Integralista Brasileiro foi uma corrente política nacionalista, autoritária, antiliberal e anticomunista que alcançou expressiva projeção no Brasil durante a década de 1930. Sua principal organização foi a Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada oficialmente em 7 de outubro de 1932 pelo escritor e político Plínio Salgado. O movimento procurava apresentar-se como uma alternativa tanto ao liberalismo democrático quanto ao socialismo e ao comunismo, defendendo a construção de um Estado centralizado, hierárquico e orientado por valores nacionalistas e cristãos.
Os integralistas adotaram uma estrutura fortemente disciplinada e militarizada. Seus integrantes utilizavam camisas verdes, realizavam desfiles, faziam uma saudação com o braço levantado e empregavam a expressão indígena “Anauê”, interpretada pelo movimento como uma saudação de união e fraternidade. O símbolo integralista era a letra grega sigma (Σ), que representava a soma e a integração das diferentes partes da sociedade em uma unidade nacional.
Embora apresentasse características próprias relacionadas à realidade brasileira, o integralismo foi influenciado pelo contexto de expansão dos movimentos autoritários europeus do período entreguerras, especialmente o fascismo italiano. Havia semelhanças na valorização da liderança política, no nacionalismo exacerbado, na mobilização das massas, na oposição ao comunismo e na crítica à democracia liberal. Entretanto, os integralistas brasileiros procuravam diferenciar sua doutrina do fascismo europeu, enfatizando elementos cristãos, espiritualistas e nacionalistas.
Origem
A origem do integralismo brasileiro está relacionada às transformações políticas, sociais e econômicas ocorridas após a Revolução de 1930. A chegada de Getúlio Vargas ao poder enfraqueceu as antigas oligarquias estaduais e abriu espaço para novos movimentos que disputavam os rumos do país. Ao mesmo tempo, os efeitos da crise econômica mundial iniciada em 1929, a urbanização, o crescimento das organizações operárias e o avanço das ideias socialistas provocavam insegurança entre setores das classes médias, proprietários rurais, empresários, militares e membros do clero.
Plínio Salgado teve papel central na formulação da doutrina integralista. Antes da criação da AIB, participou do movimento modernista e de grupos intelectuais nacionalistas, como o movimento Verde-Amarelo e o grupo da Anta. Após uma viagem à Europa, realizada em 1930, entrou em contato mais direto com os regimes autoritários que se consolidavam no continente, particularmente com o fascismo italiano liderado por Benito Mussolini.
Em outubro de 1932, Plínio Salgado divulgou o “Manifesto de Outubro”, documento considerado o marco fundador da Ação Integralista Brasileira. O texto criticava o individualismo liberal, o materialismo, o comunismo e os conflitos entre as classes sociais. Em contrapartida, defendia uma sociedade organizada de maneira corporativa, na qual trabalhadores, empresários e profissionais estariam reunidos em organizações controladas e coordenadas pelo Estado.
A AIB cresceu rapidamente e estabeleceu núcleos em diferentes regiões brasileiras. O movimento atraiu integrantes das classes médias urbanas, profissionais liberais, estudantes, funcionários públicos, militares, comerciantes, membros do clero e descendentes de imigrantes. Seu crescimento foi favorecido pela propaganda política, pela organização interna disciplinada e pelo temor que determinados grupos sociais sentiam diante da expansão do comunismo.
Princípios e ideias defendidos:
• Nacionalismo: os integralistas defendiam a unidade territorial, política e cultural do Brasil, rejeitando movimentos separatistas, influências estrangeiras consideradas prejudiciais e divisões regionais.
• Estado forte e centralizado: a organização política deveria concentrar amplos poderes no governo central, limitando a autonomia dos estados e reduzindo a atuação dos partidos políticos tradicionais.
• Antiliberalismo: o movimento rejeitava a democracia liberal, o pluripartidarismo, o individualismo e o sistema parlamentar, considerados incapazes de promover a unidade nacional.
• Anticomunismo: o comunismo era apresentado como uma ameaça à propriedade privada, à religião, à família e à soberania nacional.
• Corporativismo: trabalhadores, empresários e profissionais deveriam ser organizados segundo suas atividades econômicas, formando corporações supervisionadas pelo Estado.
• Harmonia entre as classes sociais: em lugar da luta de classes proposta pelo marxismo, os integralistas defendiam a cooperação entre trabalhadores e empregadores sob a mediação estatal.
• Cristianismo: a doutrina integralista valorizava princípios religiosos e morais associados ao cristianismo, embora a AIB não fosse oficialmente vinculada a uma única denominação religiosa.
• Defesa da família tradicional: a família era considerada a base moral da sociedade e uma instituição essencial para a formação dos cidadãos.
• Hierarquia e disciplina: a sociedade deveria ser organizada segundo relações de autoridade, obediência e respeito às hierarquias políticas, sociais e familiares.
• Liderança política centralizada: o movimento valorizava a figura de um chefe nacional capaz de representar a unidade do país e conduzir o Estado acima dos interesses partidários.
• Combate ao regionalismo político: as disputas entre oligarquias estaduais eram vistas como obstáculos à consolidação de uma identidade nacional unificada.
• Propriedade privada subordinada ao interesse coletivo: a propriedade particular seria mantida, mas deveria cumprir uma função social e estar sujeita às necessidades do Estado e da nação.
• Mobilização das massas: cerimônias, uniformes, símbolos, desfiles e discursos eram utilizados para fortalecer a identidade coletiva e a disciplina dos militantes.
• Valorização da identidade nacional: a cultura, a História e as tradições brasileiras deveriam servir como fundamentos para a construção de um projeto político próprio.
Apesar de o movimento não ter adotado oficialmente o racismo biológico como princípio geral, existiram correntes antissemitas dentro do integralismo. Gustavo Barroso, um dos principais dirigentes da AIB, difundiu ideias antissemitas e teorias conspiratórias contra os judeus. Outros líderes integralistas, como Plínio Salgado e Miguel Reale, não concederam ao antissemitismo a mesma posição central. Essas diferenças revelam que o integralismo brasileiro não era ideologicamente homogêneo.
Participação na política brasileira
Entre 1932 e 1937, a Ação Integralista Brasileira transformou-se em uma das maiores organizações políticas de massas do país. A entidade criou uma ampla rede de núcleos municipais, departamentos femininos, grupos juvenis, organizações de assistência social, jornais e publicações doutrinárias. Estimativas sobre o número de integrantes variam consideravelmente, mas o movimento reuniu centenas de milhares de simpatizantes e militantes.
A organização possuía uma estrutura hierárquica, tendo Plínio Salgado como chefe nacional. Gustavo Barroso e Miguel Reale também desempenharam funções importantes na elaboração e na divulgação da doutrina integralista. Enquanto Barroso representava uma corrente mais radical e antissemita, Reale destacou-se pela formulação jurídica e corporativista do movimento.
Os integralistas participaram das intensas disputas políticas que marcaram o governo de Getúlio Vargas. Durante a primeira metade da década de 1930, entraram em confrontos de rua com comunistas, socialistas, anarquistas e outros grupos antifascistas. Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 7 de outubro de 1934, na Praça da Sé, em São Paulo, quando uma manifestação integralista foi enfrentada por organizações antifascistas. O confronto resultou em mortos e feridos.
Com o aumento da polarização política, a AIB tornou-se uma das principais forças de oposição à Aliança Nacional Libertadora (ANL), organização de esquerda liderada simbolicamente por Luís Carlos Prestes. Após as revoltas comunistas de novembro de 1935, denominadas pelo governo de Intentona Comunista, o anticomunismo integralista ganhou maior espaço no cenário político.
Inicialmente, muitos integralistas aproximaram-se de Getúlio Vargas por acreditarem que ele poderia estabelecer um Estado autoritário e corporativista semelhante ao projeto defendido pela AIB. Plínio Salgado chegou a preparar sua candidatura à Presidência da República para as eleições previstas para janeiro de 1938. A campanha, contudo, foi interrompida pelo golpe de 10 de novembro de 1937, que instaurou o Estado Novo.
Parte dos integralistas apoiou o golpe por considerar que o novo regime poderia incorporar suas propostas políticas. Vargas, no entanto, proibiu todos os partidos e movimentos políticos, incluindo a própria Ação Integralista Brasileira. A decisão provocou uma ruptura entre o governo e setores da militância integralista.
Como terminou
A Ação Integralista Brasileira foi extinta legalmente após a implantação do Estado Novo, em novembro de 1937. O Decreto-Lei nº 37, de 2 de dezembro daquele ano, determinou o fechamento dos partidos e das organizações políticas. Para tentar continuar atuando, antigos membros criaram a Associação Brasileira de Cultura, mas o governo impôs restrições crescentes às suas atividades.
A insatisfação de setores integralistas levou à organização de conspirações contra Getúlio Vargas. Em março de 1938, ocorreu uma primeira tentativa de levante, rapidamente controlada. Na madrugada de 11 de maio do mesmo ano, um grupo de integralistas e opositores do governo atacou o Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro, onde Vargas e sua família estavam hospedados. O episódio ficou conhecido como Levante Integralista ou Intentona Integralista.
Os participantes pretendiam prender ou derrubar o presidente e assumir o controle de instalações estratégicas. A ação fracassou por problemas de organização, falta de apoio militar suficiente e rápida reação das forças governistas. Alguns invasores foram mortos, enquanto outros acabaram presos. Após o levante, o governo intensificou a repressão, realizou prisões e obrigou Plínio Salgado a seguir para o exílio em Portugal, em 1939.
A dissolução da AIB e o fracasso do levante de 1938 encerraram a atuação do integralismo como grande movimento político organizado durante o período Vargas. Seus integrantes, contudo, não desapareceram da vida pública. Com o fim do Estado Novo e a redemocratização de 1945, Plínio Salgado e antigos integralistas fundaram o Partido de Representação Popular (PRP).
O PRP abandonou uniformes, saudações paramilitares e parte da estética utilizada pela AIB, mas preservou princípios como o nacionalismo, o conservadorismo, o anticomunismo e a defesa de uma sociedade orientada por valores cristãos. Plínio Salgado concorreu à Presidência da República em 1955 e permaneceu na política até sua morte, em 1975.
Conclusão
Historicamente, o integralismo brasileiro deve ser compreendido como parte da crise das democracias liberais e da ascensão de movimentos autoritários ocorrida entre as décadas de 1920 e 1930. Seu crescimento revelou tanto a força do anticomunismo quanto a atração exercida por projetos nacionalistas e centralizadores em uma sociedade marcada por desigualdades, instabilidade institucional e rápidas transformações econômicas. Embora a AIB tenha sido oficialmente dissolvida, algumas de suas ideias e formas de mobilização permaneceram presentes em diferentes organizações da direita brasileira ao longo das décadas seguintes.
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Plínio Salgado e a bandeira da Frente Integralista Brasileira. |
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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)
Atualizado em 30/07/2026
Fontes:
O que foi o integralismo brasileiro: conheça o movimento de extrema-direita
https://atlas.fgv.br/verbete/5925
TRINDADE, Helgio. A Tentação Fascista no Brasil. Imaginário de Dirigentes e Militantes Integralistas. Porto Alegre: Editor UFRGS, 2016.
