História do Estado da Bahia: Colônia, Império, República e resumo
A história da Bahia é marcada pela presença indígena, pela colonização portuguesa, pela fundação da primeira capital do Brasil, pela economia açucareira escravista, pelas lutas de resistência e independência.
Resumo
A história da Bahia teve início muito antes da chegada dos portugueses, quando seu território era habitado por diversos povos indígenas, principalmente de origem tupi e macro-jê. Em 1500, a expedição de Pedro Álvares Cabral chegou ao litoral do atual estado, na região de Porto Seguro. Em 1549, Salvador foi fundada por Tomé de Sousa e tornou-se a primeira capital do Brasil, posição que ocupou até 1763.
Durante o período colonial, a Bahia destacou-se pela produção de açúcar, pelo comércio atlântico e pela utilização intensiva de mão de obra africana escravizada, tornando-se um importante centro econômico e cultural. A população também protagonizou movimentos de resistência, como a Conjuração Baiana (1798) e a Revolta dos Malês (1835).
A participação baiana nas lutas pela Independência do Brasil foi decisiva, culminando na expulsão das tropas portuguesas de Salvador em 2 de julho de 1823. Após a Proclamação da República, em 1889, a Bahia passou por transformações políticas, econômicas e sociais, mantendo forte influência das oligarquias regionais.
Ao longo do século XX, o estado experimentou processos de urbanização e industrialização, especialmente na região de Salvador, embora persistissem desigualdades sociais e econômicas. Atualmente, a Bahia destaca-se por sua diversidade cultural, marcada pelas influências indígenas, africanas e europeias, e por sua importância histórica, econômica e turística para o Brasil.
Colônia: capitanias e fundação de Salvador
Em 1534, o rei português criou a capitania da Bahia de Todos os Santos e entregou sua administração a Francisco Pereira Coutinho. Outras parcelas do atual território baiano pertenciam às capitanias de Ilhéus e de Porto Seguro. Os donatários podiam distribuir terras e organizar a colonização, mas enfrentavam dificuldades de abastecimento e a resistência de indígenas que defendiam suas aldeias.
Depois do fracasso da administração de Coutinho, a Coroa assumiu a capitania e escolheu a Baía de Todos os Santos para instalar o governo-geral. Tomé de Sousa chegou em 1549 e fundou Salvador. A cidade abrigou o governador-geral e funcionários encarregados da justiça e da cobrança de tributos. Os jesuítas que acompanharam a expedição passaram a organizar a catequese e o ensino religioso.
Em Salvador, autoridades instalaram repartições na Cidade Alta, enquanto comerciantes e trabalhadores utilizaram a faixa próxima ao porto para armazenar e transportar mercadorias. Pela baía, embarcações ligavam a capital às povoações do Recôncavo; pelo Atlântico, negociantes mantinham contatos com Portugal e com portos africanos. A posição da cidade favorecia o abastecimento dos engenhos e a circulação de ordens do governo colonial.
Colônia: trabalho escravizado e ocupação do interior
No Recôncavo, senhores de engenho cultivaram cana-de-açúcar e produziram açúcar para exportação. Empregaram indígenas escravizados e ampliaram a compra de africanos trazidos pelo tráfico atlântico. Na região de Cachoeira, agricultores também cultivaram tabaco, que comerciantes utilizavam nas trocas com portos da África, inclusive na compra de pessoas escravizadas.
Os proprietários obrigavam os cativos a trabalhar nas lavouras e nos engenhos. Em Salvador, escravizados atuavam no serviço doméstico e em ofícios urbanos. Alguns trabalhavam ao ganho: vendiam produtos ou prestavam serviços nas ruas e entregavam ao senhor uma quantia combinada. Africanos e descendentes formaram irmandades religiosas e redes de ajuda; também resistiram por fugas e pela organização de quilombos.
Na criação de gado, famílias de grandes proprietários, como os Garcia d`Ávila, expandiram seus domínios pelo sertão. Vaqueiros conduziam rebanhos que abasteciam os engenhos e as cidades. Agricultores produziam mandioca para o consumo regional, enquanto colonizadores disputavam terras indígenas. Missões religiosas reuniram comunidades em aldeamentos e submeteram seus moradores a novas regras de trabalho e de culto.
No século XVIII, mineradores exploraram ouro na região de Jacobina e de Rio de Contas. Comerciantes ligaram essas áreas ao litoral por caminhos usados por tropeiros. A administração portuguesa incorporou Ilhéus e Porto Seguro à Bahia durante a segunda metade do século, ampliando o território subordinado ao governo sediado em Salvador.
Colônia: invasões e contestação do domínio português
Os holandeses ocuparam Salvador em 1624, durante as guerras que travavam contra a monarquia espanhola, à qual a Coroa portuguesa estava unida. Uma expedição luso-espanhola retomou a cidade no ano seguinte. Os invasores pretendiam controlar um porto ligado ao comércio açucareiro, e os combates atingiram moradores e propriedades na área da capital.
Em 1763, a administração portuguesa transferiu a capital do Estado do Brasil para o Rio de Janeiro. A Coroa aproximou o governo das áreas de mineração e das disputas territoriais no sul. Salvador continuou a receber navios e a concentrar negociantes, embora seus funcionários já não dirigissem o governo central da colônia.
Em 1798, participantes da Conjuração Baiana divulgaram em Salvador escritos que defendiam uma república e a liberdade, com propostas de igualdade e de combate à escravidão. Soldados e alfaiates participaram da mobilização, em uma cidade onde a população enfrentava o encarecimento dos alimentos e a discriminação racial. As autoridades investigaram o movimento e executaram quatro homens em 1799. Entre os condenados estavam os alfaiates João de Deus e Manuel Faustino.
Ao passar por Salvador em 1808, o príncipe regente dom João decretou a abertura dos portos às nações amigas. Comerciantes puderam negociar com países autorizados sem a antiga obrigação de passar pelo comércio português. A corte seguiu para o Rio de Janeiro, de onde governou a monarquia durante sua permanência no Brasil.
Império: a guerra pela Independência
Em 1822, tropas portuguesas comandadas por Inácio Luís Madeira de Melo controlavam Salvador. Moradores contrários à sua autoridade organizaram forças no Recôncavo, e Cachoeira tornou-se um centro de articulação da resistência. A ruptura proclamada por dom Pedro no Rio de Janeiro encontrou, na Bahia, uma guerra em andamento.
Combatentes baianos e tropas enviadas pelo governo imperial cercaram Salvador por terra. Na batalha de Pirajá, em novembro daquele ano, impediram o avanço das forças portuguesas. Maria Quitéria participou dos combates e recebeu reconhecimento por sua atuação militar. Trabalhadores pobres e homens negros também integraram as forças brasileiras, embora os dirigentes preservassem a ordem escravista.
Com o cerco terrestre e o bloqueio naval comandado por Thomas Cochrane, as tropas de Madeira de Melo deixaram Salvador em 2 de julho de 1823. As forças brasileiras entraram na cidade, consolidando a adesão da Bahia ao Império. Na província, os moradores passaram a comemorar o Dois de Julho com cortejos que celebram a vitória e a participação popular.
Império: revoltas e disputas pelo poder
Durante o governo imperial, o poder central nomeava os presidentes da província, enquanto proprietários e negociantes disputavam cargos nas instituições locais. Na Regência, após a abdicação de dom Pedro I, autoridades enfrentaram revoltas contra a escravidão e contestações à direção política do país.
Na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, africanos escravizados e libertos organizaram em Salvador a Revolta dos Malês. Muçulmanos tiveram atuação na preparação do levante, que também reuniu africanos de outras crenças. Os rebeldes enfrentaram forças policiais e militares nas ruas. Depois da derrota, as autoridades aplicaram penas de morte e castigos corporais, além de deportarem africanos e ampliarem a vigilância sobre suas reuniões.
Entre 1837 e 1838, os participantes da Sabinada tomaram o governo de Salvador e proclamaram uma república baiana que deveria durar até a maioridade de dom Pedro II. O médico e jornalista Francisco Sabino participou da liderança. Os revoltosos criticavam o governo regencial e o recrutamento militar. Proprietários do Recôncavo apoiaram o cerco à capital, e as forças imperiais retomaram a cidade depois de combates que provocaram mortes e incêndios.
Império: economia provincial e abolição
Ao longo do século XIX, produtores baianos continuaram a exportar açúcar e tabaco, mas enfrentaram concorrência externa e oscilações de preços. No sul, agricultores ampliaram as plantações de cacau. Na Chapada Diamantina, a exploração de diamantes, a partir da década de 1840, atraiu garimpeiros e negociantes para localidades como Lençóis e Mucugê.
Comerciantes de Feira de Santana abasteciam compradores de gado e articulavam negócios entre o sertão e o Recôncavo. Empresários também instalaram fábricas têxteis, enquanto governos e companhias construíram ferrovias para transportar passageiros e mercadorias. A província manteve uma economia agrícola, com indústrias em algumas localidades e acesso desigual às novas vias de transporte.
Escravizados disputaram sua liberdade por meio de fugas e de ações judiciais, além de reunirem dinheiro para comprar alforrias. Na fase final do Império, associações abolicionistas e jornais combateram a escravidão. Em 1888, a Lei Áurea extinguiu o regime escravista. Os libertos passaram a negociar trabalho e moradia sem uma política de distribuição de terras, e continuaram sujeitos à discriminação racial.
República: oligarquias e Guerra de Canudos
Com a proclamação da República, em 1889, a Bahia tornou-se um estado da federação. Dirigentes estaduais ganharam autonomia, e proprietários rurais conhecidos como coronéis influenciaram eleições e nomeações. Chefes locais utilizavam favores e ameaças para reunir eleitores; facções rivais disputavam o governo estadual e o apoio das autoridades federais.
Em 1893, Antônio Conselheiro reuniu seguidores no arraial de Belo Monte, conhecido como Canudos, no sertão baiano. Os moradores praticavam o catolicismo e trabalhavam na agricultura e no comércio. Conselheiro criticava medidas republicanas, como o casamento civil. Autoridades e jornais acusaram a comunidade de ameaçar a República e a associaram a planos de restauração da monarquia, sem comprovar a existência de uma conspiração desse tipo.
Entre 1896 e 1897, o governo enviou quatro expedições contra Canudos. Os sertanejos derrotaram as primeiras forças, mas o Exército destruiu o arraial na última campanha. Soldados mataram combatentes e moradores, inclusive prisioneiros. Euclides da Cunha acompanhou parte da guerra como correspondente e, em 1902, publicou "Os Sertões", obra na qual examinou o conflito e denunciou a violência militar.
República: cacau, petróleo e industrialização
Durante a primeira metade do século XX, fazendeiros e exportadores de cacau acumularam riqueza no sul da Bahia, sobretudo na região de Ilhéus e Itabuna. Trabalhadores abriram roças e colheram frutos, enquanto grandes proprietários disputaram terras e cargos políticos. Jorge Amado retratou conflitos dessa região em romances como "Terras do Sem-Fim".
Em 1939, técnicos encontraram petróleo no bairro de Lobato, em Salvador. Dois anos depois, descobriram em Candeias um campo com produção comercial. Na década de 1950, a Petrobras expandiu suas atividades no Recôncavo, e a refinaria de Mataripe passou a processar petróleo. Operários e técnicos chegaram às áreas produtoras, onde empresas abriram vagas e alteraram as relações de trabalho.
Governos e empresários instalaram o Centro Industrial de Aratu na década de 1960. Em 1978, inauguraram o Polo Petroquímico de Camaçari, com unidades que produziam matérias-primas para a indústria química. Trabalhadores migraram para a Região Metropolitana de Salvador, e sindicatos organizaram categorias ligadas ao petróleo e à petroquímica. Os investimentos industriais se concentraram nessa área, enquanto municípios do interior mantiveram menor acesso a empregos formais.
Na região cacaueira, produtores enfrentaram a vassoura-de-bruxa, detectada na Bahia em 1989. A doença atingiu os cacaueiros, reduziu as colheitas e agravou as dificuldades financeiras dos agricultores. Trabalhadores perderam empregos, e pesquisadores desenvolveram materiais resistentes para recuperar a produção.
República: vida política, cultura e mudanças regionais
Após a Revolução de 1930, o governo federal passou a nomear interventores na Bahia. Durante o Estado Novo, autoridades restringiram a atuação dos partidos e censuraram a imprensa. Com o fim da ditadura de Getúlio Vargas, em 1945, eleitores voltaram a escolher seus governantes. A criação da Universidade da Bahia, em 1946, depois denominada Universidade Federal da Bahia, ampliou a formação universitária e os espaços de produção artística em Salvador.
Depois do golpe de 1964, agentes da ditadura militar perseguiram estudantes e militantes políticos. Antônio Carlos Magalhães ampliou sua influência em governos e alianças partidárias durante o regime e manteve poder após a redemocratização. Organizações populares e sindicatos participaram das disputas pela abertura política. A partir de 2007, Jaques Wagner assumiu o governo estadual, encerrando uma sequência de administrações vinculadas ao grupo carlista.
Na cultura, comunidades negras mantiveram terreiros de candomblé e rodas de capoeira, apesar da repressão policial sofrida durante parte da República. Em 1974, moradores do Curuzu fundaram o Ilê Aiyê, bloco afro que levou a valorização da população negra ao carnaval de Salvador. Artistas baianos também participaram da Tropicália, na década de 1960, e da expansão da música carnavalesca nas décadas seguintes.
No final do século XX e no início do XXI, produtores ampliaram o cultivo de soja e algodão no oeste baiano. Na região de Juazeiro, agricultores utilizaram irrigação para produzir frutas destinadas ao mercado interno e à exportação. No litoral, empresários expandiram serviços turísticos. Comunidades indígenas e quilombolas continuaram a reivindicar terras, enquanto moradores de áreas rurais e das periferias urbanas cobravam abastecimento de água e acesso a serviços públicos.
Você Sabia?
• Em 1827, um decreto imperial incorporou à Bahia a comarca do Rio de São Francisco, antes vinculada a Pernambuco e depois a Minas Gerais. O texto previa uma incorporação provisória, mas a região permaneceu baiana e integra o oeste do estado.
• Dom João criou a Escola de Cirurgia da Bahia em fevereiro de 1808. Professores ministravam aulas teóricas no Hospital Real Militar, instalado no antigo Colégio dos Jesuítas, e ensinavam procedimentos nas enfermarias. A instituição iniciou a trajetória do ensino médico que deu origem à Faculdade de Medicina da Bahia.
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| Infográfico com os principais eventos e momentos da história da Bahia |
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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 28/08/2025 e atualizado em 10/10/2026
