A Revolução de 1923 no RS: contexto, causas, líderes e consequências

A Revolução de 1923 no Rio Grande do Sul foi um conflito político armado entre borgistas e libertadores, resultado da disputa pelo poder e da insatisfação com o autoritarismo do governo estadual.

Joaquim Francisco de Assis Brasil: principal líder da Revolução de 1923.
Joaquim Francisco de Assis Brasil: principal líder da Revolução de 1923.

 

O que foi


A Revolução de 1923 foi um conflito político e armado ocorrido no estado do Rio Grande do Sul, entre janeiro e dezembro de 1923, envolvendo duas facções rivais: os partidários do presidente estadual Borges de Medeiros, do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), e os opositores liderados por Assis Brasil, vinculados ao Partido Libertador. O confronto refletiu disputas políticas e ideológicas entre o centralismo do PRR, que dominava a política gaúcha desde o final do século XIX, e o ideal de maior autonomia e liberdade política defendido pela oposição.



Contexto histórico


O conflito inseriu-se num período de hegemonia política do PRR, partido que controlava o governo estadual desde 1891, sob a liderança de Júlio de Castilhos e, posteriormente, de Borges de Medeiros. Essa hegemonia se sustentava no modelo castilhista, inspirado no positivismo de Auguste Comte, que pregava um governo centralizado e autoritário em nome da ordem e do progresso.

Vale destacar também que o domínio do PRR gerava insatisfação entre setores da elite agrária, opositores do controle exercido sobre a política, as eleições e a administração pública. A eleição de Borges de Medeiros para um quinto mandato consecutivo, em 1922, foi o estopim da revolta, pois a oposição considerou o processo eleitoral fraudulento e ilegítimo.



Causas principais:


Fraude eleitoral: a reeleição de Borges de Medeiros em 1922 foi considerada manipulada pela oposição, que denunciava o controle do PRR sobre o processo eleitoral.


Hegemonia política do PRR: a concentração de poder nas mãos do partido de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros limitava a participação de outros grupos políticos, provocando descontentamento entre as elites regionais.


Centralização administrativa: o modelo castilhista impunha forte autoridade do governo estadual sobre os municípios, contrariando os ideais federalistas e de autonomia local defendidos pelos libertadores.


Rivalidades regionais e econômicas: o embate também refletia interesses divergentes entre estancieiros, comerciantes e produtores rurais das diferentes regiões do estado.


Influência ideológica: enquanto o PRR se baseava no positivismo autoritário, o Partido Libertador defendia princípios liberais e a ampliação das liberdades políticas.



Como começou, líderes e características da revolução


A revolta teve início em janeiro de 1923, quando grupos armados liderados por Joaquim Francisco de Assis Brasil e por alguns chefes locais do interior começaram a se organizar contra o governo estadual. As forças legalistas, comandadas por oficiais fiéis a Borges de Medeiros, enfrentaram os rebeldes em diversas regiões do estado, sobretudo na fronteira oeste e nas Missões. O movimento, embora regional, mobilizou milhares de combatentes e se estendeu por quase todo o ano.

O conflito foi caracterizado por combates dispersos, táticas de guerrilha e longos períodos de negociações frustradas. Os revoltosos, denominados libertadores, buscavam não apenas destituir Borges de Medeiros, mas reformar o sistema político do estado. O governo, por sua vez, reagiu com repressão e tentativas de manter o controle administrativo. As lideranças da oposição contaram com o apoio de parte da imprensa e de políticos nacionais, que criticavam o autoritarismo do PRR.



Fim da revolução


A guerra civil terminou em dezembro de 1923 com a assinatura do Acordo de Pedras Altas, mediado por representantes do governo federal. O acordo foi firmado entre Borges de Medeiros e Assis Brasil e estabeleceu o reconhecimento do mandato do governador, mas com o compromisso de que não haveria nova reeleição. Além disso, o pacto previa a reforma do processo eleitoral estadual e a criação de garantias para uma maior representatividade política.


Embora tenha assegurado temporariamente a paz, o acordo não eliminou completamente as tensões entre as facções, que continuaram a influenciar a política gaúcha nos anos seguintes.



Consequências:


Acordo de Pedras Altas: encerrou o conflito ao reconhecer Borges de Medeiros como governador, mas proibiu sua nova candidatura e prometeu reformas eleitorais.


Enfraquecimento do castilhismo: a guerra revelou o esgotamento do modelo político autoritário e centralizador, enfraquecendo o domínio absoluto do PRR.


Fortalecimento da oposição: o Partido Libertador consolidou-se como força política importante, defendendo a abertura democrática e reformas institucionais.


Influência nacional: o conflito serviu de exemplo das tensões entre coronelismo e oposição civil, que marcavam a política brasileira da Primeira República.


Mudança no cenário político: o fim da revolução abriu caminho para novas lideranças e para o questionamento do domínio político das oligarquias, antecipando debates que culminariam na Revolução de 1930.

 

 

Zeca Neto

Zeca Neto (sentado à esquerda) foi um estancieiro e líder militar da Revolução de 1923 no Rio Grande do Sul, atuando ao lado dos libertadores contra o governo de Borges de Medeiros. Comandou tropas rebeldes na região da Campanha e tornou-se símbolo da resistência ao autoritarismo castilhista.

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 29/10/2025


 

Fontes de referência:

 

FLORES, Moacyr. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1996.

 

URBIM, Carlos. Rio Grande do Sul, um século de História. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1999

 

Revolução Gaúcha de 1923 - CPDOC - FGV



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