Populismo no Brasil (1945-1964): o que foi, contexto histórico, características e governos
Entre 1945 e 1954, o Brasil viveu uma fase de redemocratização, crescimento da política de massas e fortalecimento do trabalhismo, marcada pela atuação de Getúlio Vargas e por intensas disputas sociais, econômicas e políticas.
O que foi
O populismo no Brasil foi uma forma de prática política associada principalmente ao período democrático iniciado em 1945, após o fim do Estado Novo. O conceito costuma ser utilizado para caracterizar governos e lideranças que buscaram estabelecer uma relação direta com amplos setores da população urbana, sobretudo trabalhadores, combinando apelo popular, legislação social, intervenção do Estado na economia e valorização da figura do líder político.
Entre 1945 e 1954, esse fenômeno esteve relacionado principalmente ao legado político de Getúlio Vargas e ao crescimento do trabalhismo. O período compreendeu o governo de Eurico Gaspar Dutra, entre 1946 e 1951, e o segundo governo de Vargas, entre 1951 e 1954. Embora apresentassem diferenças importantes, ambos atuaram em uma sociedade marcada pelo crescimento das cidades, pela industrialização e pela ampliação da participação eleitoral.
O conceito de populismo, entretanto, deve ser utilizado com cuidado. Parte da historiografia mais recente questiona interpretações que apresentam os trabalhadores apenas como uma massa manipulada por dirigentes carismáticos. Trabalhadores urbanos, sindicatos e associações possuíam interesses próprios, organizavam greves, reivindicavam melhores salários e pressionavam o Estado. Por isso, para compreender especialmente o varguismo, muitos historiadores também utilizam o conceito de trabalhismo.
Contexto histórico
O contexto político do período teve início com a crise do Estado Novo, regime ditatorial comandado por Getúlio Vargas desde 1937. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil participou do conflito ao lado dos países Aliados contra as potências do Eixo. A participação brasileira ao lado de países que defendiam publicamente a democracia tornou cada vez mais contraditória a permanência de uma ditadura no Brasil.
Em 1945, cresceram as pressões pela redemocratização. Vargas autorizou a reorganização dos partidos políticos, concedeu anistia a presos e exilados políticos e anunciou eleições. Apesar dessas medidas, foi deposto pelas Forças Armadas em 29 de outubro de 1945.
Nas eleições presidenciais realizadas em dezembro daquele ano, o general Eurico Gaspar Dutra venceu a disputa. Sua candidatura recebeu apoio decisivo de Vargas nos momentos finais da campanha. Dutra assumiu a Presidência em janeiro de 1946 e governou até janeiro de 1951.
A Constituição de 1946 restabeleceu instituições democráticas, eleições periódicas, funcionamento do Congresso Nacional e liberdades políticas que haviam sido restringidas pelo Estado Novo. Surgiu também um sistema partidário no qual se destacaram o PSD, o PTB e a UDN.
O PSD reunia importantes lideranças estaduais e grupos ligados às estruturas políticas estabelecidas durante o governo Vargas. O PTB concentrava grande parte das forças vinculadas ao trabalhismo e tinha forte presença entre trabalhadores urbanos. A UDN reunia grupos de oposição a Vargas e transformou o antigetulismo em um de seus principais elementos políticos.
No plano internacional, o início da Guerra Fria influenciou profundamente a política brasileira. Durante o governo Dutra, o Brasil aproximou-se dos Estados Unidos e adotou uma política anticomunista. O Partido Comunista Brasileiro perdeu seu registro legal em 1947, e a atuação dos comunistas passou a sofrer maiores restrições.
Ao mesmo tempo, o país atravessava importantes transformações econômicas e sociais. A industrialização avançava, a população urbana aumentava e crescia o número de trabalhadores assalariados nas principais cidades. Questões relacionadas aos salários, às condições de trabalho, à inflação e ao custo de vida passaram a exercer maior influência sobre a política nacional.
Nesse cenário, Getúlio Vargas permaneceu politicamente ativo após sua deposição. Ele foi eleito senador e conservou grande prestígio entre parcelas expressivas do eleitorado. Em 1950, candidatou-se novamente à Presidência pelo PTB e venceu a eleição com aproximadamente 3,85 milhões de votos, derrotando Eduardo Gomes e Cristiano Machado.
Características comuns dos governos populistas brasileiros
Uma das principais características atribuídas aos governos populistas foi a tentativa de estabelecer canais de comunicação entre o Estado e os trabalhadores urbanos. As lideranças buscavam apresentar o governo como responsável pela proteção social, pela mediação dos conflitos trabalhistas e pela defesa das camadas populares.
A valorização da figura pessoal do governante também teve papel importante. Discursos públicos, rádio, cerimônias e manifestações políticas contribuíam para fortalecer a identificação entre determinados líderes e seus eleitores. No caso de Vargas, essa construção política estava associada à legislação trabalhista implantada desde a década de 1930 e à imagem de defensor dos trabalhadores.
Outra característica foi a intervenção estatal nas relações entre trabalhadores e empregadores. O Estado regulamentava os sindicatos, estabelecia normas trabalhistas e participava diretamente das negociações sociais. Essa política podia produzir benefícios aos trabalhadores, mas também criava mecanismos de controle sobre a organização sindical.
Os governos considerados populistas também estiveram associados ao crescimento da política de massas. O avanço da urbanização e da industrialização aumentou o número de cidadãos envolvidos nas disputas eleitorais e nos movimentos sociais. Trabalhadores urbanos passaram a ocupar posição cada vez mais importante nos cálculos dos partidos e candidatos.
Entre outras características frequentemente associadas ao populismo brasileiro estavam:
• forte presença de lideranças pessoais na política;
• aproximação com trabalhadores urbanos e organizações sindicais;
• utilização da legislação social como elemento de legitimação política;
• defesa do crescimento econômico e da industrialização;
• intervenção do Estado em setores estratégicos;
• mobilização eleitoral das populações urbanas;
• utilização de discursos nacionalistas;
• tentativa de conciliar interesses de trabalhadores, empresários e outros grupos sociais;
• presença crescente dos meios de comunicação na relação entre governantes e sociedade.
Apesar desses elementos gerais, os governos do período não podem ser considerados idênticos. Dutra adotou políticas mais conservadoras em diversos aspectos, enquanto o segundo governo Vargas aprofundou sua aproximação com o trabalhismo e com propostas nacionalistas.
Ações populistas dos governos do período:
Governo Eurico Gaspar Dutra
O governo Dutra apresentou uma relação mais distante com os trabalhadores organizados quando comparado ao segundo governo Vargas. Embora tivesse sido eleito com apoio do PTB e do próprio Vargas, Dutra aproximou-se progressivamente de setores conservadores e afastou-se politicamente do trabalhismo.
Durante seu governo ocorreram intervenções em sindicatos e medidas destinadas a limitar movimentos grevistas. O crescimento do anticomunismo também atingiu organizações trabalhistas que possuíam dirigentes vinculados ou próximos ao Partido Comunista.
Do ponto de vista social e econômico, Dutra procurou apresentar programas voltados ao desenvolvimento nacional. O exemplo mais conhecido foi o Plano SALTE, cuja denominação fazia referência às áreas consideradas prioritárias: saúde, alimentação, transporte e energia. Embora sua execução tenha sido limitada, o plano demonstrava o fortalecimento da ideia de planejamento estatal.
O governo também realizou investimentos em infraestrutura e acabou favorecendo determinados setores industriais. Inicialmente, porém, sua política econômica permitiu grande crescimento das importações, provocando rápida redução das reservas internacionais acumuladas pelo Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.
Por isso, o governo Dutra possui uma relação mais indireta com o populismo. Sua administração pertence ao contexto da democracia de massas inaugurada em 1945, mas não desenvolveu uma política trabalhista comparável àquela que caracterizaria o governo Vargas a partir de 1951.
Segundo governo Getúlio Vargas
O segundo governo Vargas apresentou características mais diretamente relacionadas ao trabalhismo e ao chamado populismo. Vargas assumiu a Presidência em 31 de janeiro de 1951 após vencer eleições diretas e procurou reconstruir sua relação política com os trabalhadores.
Seus discursos enfatizavam frequentemente a necessidade de proteção social e a importância dos trabalhadores para o desenvolvimento brasileiro. Ao mesmo tempo, o governo enfrentava inflação crescente, aumento do custo de vida e greves, fatores que dificultavam sua política de aproximação com o operariado.
Uma das medidas de maior impacto político ocorreu com a nomeação de João Goulart para o Ministério do Trabalho em 1953. Goulart possuía estreita relação com dirigentes sindicais e procurou aproximar o governo das organizações trabalhistas. Sua atuação encontrou forte resistência entre empresários, opositores políticos e setores das Forças Armadas.
A questão do salário mínimo tornou-se um dos principais exemplos dessa política. Diante da inflação e da perda do poder de compra dos trabalhadores, João Goulart defendeu uma elevação significativa do salário. Depois de forte reação política, deixou o Ministério do Trabalho em fevereiro de 1954.
Em 1º de maio de 1954, Vargas anunciou um reajuste de 100% do salário mínimo, seguindo a proposta defendida anteriormente por Goulart. A medida ampliou o apoio de parcelas dos trabalhadores ao presidente, mas intensificou as críticas de empresários e grupos oposicionistas.
Outra dimensão importante foi o nacionalismo econômico. Vargas defendia maior participação do Estado em setores considerados essenciais para o desenvolvimento nacional.
A principal realização nesse campo foi a criação da Petrobras em 1953. A empresa tornou-se símbolo da política nacionalista e da defesa de maior controle brasileiro sobre a exploração do petróleo. O governo também apresentou propostas relacionadas à expansão do setor elétrico e à infraestrutura necessária ao crescimento industrial.
Essa combinação entre nacionalismo econômico e trabalhismo constituiu uma das principais bases políticas do segundo governo Vargas. O presidente procurava simultaneamente incentivar o desenvolvimento industrial, fortalecer empresas nacionais, preservar a atuação estatal na economia e manter apoio entre os trabalhadores urbanos.
As relações entre governo e trabalhadores, porém, não devem ser interpretadas apenas como resultado da iniciativa de Vargas. As greves de 1953 e outras mobilizações demonstraram que os trabalhadores pressionavam o governo e apresentavam reivindicações próprias. O próprio governo precisou modificar sua política trabalhista diante do crescimento da mobilização sindical.
A crise do segundo governo Vargas
A política trabalhista e nacionalista encontrou forte oposição. A UDN manteve campanha constante contra Vargas, enquanto setores empresariais e parte das Forças Armadas criticavam algumas medidas econômicas e trabalhistas.
Carlos Lacerda tornou-se uma das principais figuras da oposição. Por meio do jornal “Tribuna da Imprensa”, realizava críticas frequentes ao presidente e denunciava problemas envolvendo o governo.
A crise política agravou-se em agosto de 1954 após o atentado contra Carlos Lacerda, ocorrido na Rua Tonelero, no Rio de Janeiro. Lacerda ficou ferido e o major Rubens Florentino Vaz morreu. As investigações descobriram o envolvimento de integrantes da guarda pessoal de Vargas, provocando grave crise política.
Pressionado por setores militares e pela oposição, Vargas enfrentou crescentes exigências para deixar a Presidência. Na manhã de 24 de agosto de 1954, suicidou-se no Palácio do Catete.
Sua morte provocou grandes manifestações populares e encerrou dramaticamente uma fase fundamental da experiência política iniciada em 1945. Vargas permaneceu como principal símbolo brasileiro do trabalhismo e também como personagem central das interpretações históricas sobre o populismo.
Considerações sobre o conceito de populismo
O período entre 1945 e 1954 demonstra que o populismo brasileiro não deve ser entendido simplesmente como uma estratégia utilizada por políticos para manipular trabalhadores.
Os governos precisavam responder a uma sociedade urbana cada vez mais mobilizada. Trabalhadores realizavam greves, participavam de sindicatos, votavam, apresentavam reivindicações e pressionavam partidos e governantes. As políticas trabalhistas eram, portanto, resultado tanto das estratégias dos dirigentes quanto das pressões exercidas pelos grupos sociais.
Por essa razão, atualmente é importante utilizar o conceito de populismo de maneira crítica. No caso brasileiro, ele ajuda a compreender a formação da política de massas, a valorização de lideranças populares e a crescente importância das questões sociais. Entretanto, não explica sozinho a complexidade das relações políticas existentes no período.
Entre 1945 e 1954, o Brasil passou por redemocratização, crescimento urbano, industrialização, fortalecimento dos partidos e maior participação política dos trabalhadores. Nesse contexto, Dutra representou uma fase mais conservadora da experiência democrática, enquanto Vargas aprofundou o trabalhismo, o nacionalismo econômico e a aproximação política com os trabalhadores, elementos que marcaram profundamente a história política brasileira do pós-guerra.
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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 21/09/2026
Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Per%C3%ADodo_Populista
O populismo no Brasil - Desafios de um debate historiográfico