Drogas do sertão na economia colonial brasileira
Conheça nesse artigo o que eram as drogas do sertão, o comércio amazônico e o trabalho indígena na economia colonial da América portuguesa.
O que eram as drogas do sertão?
As drogas do sertão eram produtos naturais que os colonizadores comercializavam, sobretudo a partir da Amazônia, para uso na alimentação e na preparação de remédios, entre outras aplicações. Nos séculos XVII e XVIII, comerciantes portugueses enviaram essas mercadorias para mercados do Atlântico, com destaque para o cacau. Para obtê-las, recorreram ao trabalho e aos conhecimentos dos povos indígenas.
Na linguagem comercial da época, “droga” designava substâncias empregadas como especiarias ou ingredientes de botica, estabelecimento em que se preparavam e vendiam medicamentos. Já “sertão” nomeava terras do interior que os portugueses conheciam pouco ou controlavam de maneira limitada. No caso amazônico, os colonizadores aplicavam essa palavra a áreas de floresta habitadas por povos com suas próprias formas de organização.
A Amazônia na colonização portuguesa
Os portugueses fundaram Belém em 1616, durante a disputa com outros europeus pelo acesso à foz do Amazonas. Ao instalar fortificações e organizar expedições, pretendiam defender o território e explorar mercadorias da floresta. A Coroa reuniu parte de seus domínios do norte no Estado do Maranhão, criado em 1621 e administrado separadamente do Estado do Brasil. Por isso, a expressão “economia colonial brasileira”, aplicada ao tema, abrange territórios que hoje pertencem ao Brasil, mas que possuíam governos coloniais distintos.
Produtos e usos comerciais
Os registros coloniais apresentam conjuntos variáveis de mercadorias sob a denominação de drogas do sertão. Entre os produtos negociados estavam:
• Cacau, cujas sementes abasteciam a fabricação de chocolate, consumido na Europa como bebida.
• Cravo-do-maranhão, de cuja árvore se retiravam partes aromáticas, como a casca. Os negociantes comparavam seu aroma ao do cravo asiático, embora fossem plantas distintas.
• Salsaparrilha, cujas raízes os boticários empregavam em preparações medicinais conforme os conhecimentos da época.
• Copaíba, da qual se extraía um óleo-resina utilizado em práticas de cura.
• Baunilha, comercializada por seu aroma e por seu emprego em preparações alimentares.
Os europeus aproximavam alguns produtos amazônicos das especiarias que já compravam na Ásia. Ao usar nomes conhecidos, como cravo, negociantes podiam apresentar as mercadorias americanas a compradores interessados em substituir ou complementar os gêneros orientais.
Conhecimentos e trabalho dos povos indígenas
Os povos indígenas conheciam os lugares de ocorrência das plantas e as épocas adequadas para a coleta. Também sabiam navegar pelos rios e preparar alimentos durante as viagens. Os portugueses dependiam dessas experiências para organizar expedições que podiam durar meses.
Colonos e missionários recrutavam indígenas para remar e recolher os produtos. As condições variavam conforme a legislação e a posição de cada comunidade. Havia pessoas escravizadas e indígenas considerados livres, mas obrigados a prestar serviços por sistemas de repartição do trabalho. A previsão de pagamento coexistia com abusos e com a imposição de tarefas.
Os indígenas negociavam condições de serviço e resistiam às imposições coloniais. Alguns abandonavam as expedições; outros recorriam às autoridades para reclamar de abusos. Ao descrever esses trabalhadores apenas como “coletores”, perde-se de vista o conhecimento que empregavam e os conflitos que enfrentavam.
Canoas e caminhos do comércio
Os organizadores das viagens precisavam reunir trabalhadores e financiar os mantimentos. Nas canoas, os expedicionários percorriam o Amazonas e seus afluentes até alcançar áreas de coleta. O cabo da canoa comandava a viagem em nome de quem a havia financiado.
Ao retornar, transportavam as cargas para os centros de comércio. Em Belém, negociantes reuniam mercadorias para embarcá-las rumo a Portugal. Os produtores dependiam da disponibilidade de navios; atrasos e perdas durante o transporte podiam reduzir os rendimentos. A Coroa cobrava tributos sobre a circulação dos gêneros, enquanto autoridades locais fiscalizavam embarcações em pontos dos rios.
As missões religiosas e as disputas por trabalhadores
Os jesuítas e outras ordens religiosas organizaram aldeamentos, onde catequizavam indígenas e dirigiam atividades produtivas. Os missionários enviavam canoas para recolher mercadorias e participavam do comércio regional. Com parte dos rendimentos, custeavam as aldeias e suas igrejas.
Os colonos disputavam com os religiosos o acesso aos trabalhadores indígenas. Também criticavam privilégios fiscais concedidos às ordens. Os missionários contestavam certas formas de escravização, mas exigiam serviços dos moradores dos aldeamentos. Os conflitos envolviam quem poderia distribuir o trabalho e receber os ganhos da coleta.
A alimentação dos expedicionários
Os trabalhadores levavam farinha de mandioca para as viagens e completavam a alimentação com o que obtinham da pesca ou da caça. Nas aldeias, as mulheres participavam do cultivo e do preparo da farinha que abastecia as canoas. Quando os organizadores retiravam muitos trabalhadores das roças para ampliar a coleta, os moradores podiam enfrentar dificuldades para produzir alimentos. Quem exportava cacau dependia, portanto, de quem mantinha o abastecimento local.
O cacau entre a coleta e o cultivo
O cacau ocupou a primeira posição entre as drogas exportadas pelo porto de Belém no século XVIII. Os trabalhadores recolhiam frutos de cacaueiros silvestres, enquanto moradores também passaram a cultivar a planta. A Coroa estimulou o plantio para aumentar a oferta e reduzir as incertezas das viagens de coleta.
Agricultores e missionários combinaram o cultivo do cacau com a produção de alimentos. Na missão de Comaru, na região do Tapajós, plantavam mandioca junto aos cacaueiros. A coleta nas matas continuou a abastecer os negociantes, mesmo com a expansão das roças.
As reformas pombalinas
Em 1755, o governo português criou a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão, à qual concedeu privilégios comerciais. Seus administradores organizaram transportes e ampliaram o tráfico de africanos escravizados para a região. Os negociantes já exportavam drogas do sertão havia mais de um século.
Com o "Diretório dos Índios", instituído em 1757, autoridades civis passaram a dirigir povoações antes administradas por missionários. Embora a legislação reconhecesse a liberdade dos indígenas, os diretores continuaram a interferir na distribuição de seu trabalho. Em 1759, a Coroa expulsou os jesuítas dos domínios portugueses.
Ganhos comerciais e custos da colonização
Comerciantes obtiveram rendimentos com a exportação, e governadores associaram a exploração da floresta à ocupação dos rios. Os indígenas enfrentaram deslocamentos e jornadas impostas pelos colonizadores. Africanos escravizados também trabalharam na economia regional, sobretudo em atividades agrícolas, mesmo quando os indígenas predominavam nas expedições de coleta.
A expressão “ciclo das drogas do sertão”, usada em materiais didáticos, reúne atividades que ocorreram junto à agricultura e ao comércio de abastecimento. Os moradores combinavam essas ocupações conforme o acesso aos trabalhadores e os preços das mercadorias. A floresta continuou a fornecer produtos para exportação durante a expansão das lavouras.
Você Sabia?
• Na primeira metade do século XVIII, autoridades e moradores empregavam mercadorias da terra em pagamentos no Maranhão e Pará. A escassez de moeda metálica favorecia o uso desses gêneros como “moeda natural”.
• Em 1646, o donatário da capitania do Caeté nomeou Manuel Furtado “capitão do descobrimento do cravo”. Pela concessão, Furtado deveria entregar ao donatário um décimo do produto extraído.
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| Infográfico didático sobre as drogas do sertão na economia colonial brasileira. |
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Artigo publicado em:16/10/2026
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Fontes:
